Impressões à Margem...
Doutor em História pela Universidade Federal de Uberlândia (2020). Mestre em História Social pela Universidade Federal de Uberlândia (2016). Graduado em História (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal de Goiás (UFG/CAC). Atuou na iniciação científica como duas pesquisas fomentadas pelo CNPq. Possui diversos artigos publicados em revistas científicas.
domingo, 2 de maio de 2021
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
sábado, 11 de janeiro de 2014
NELSON RODRIGUES, LITERATURA E JORNALISMO NOS ANOS DOURADOS (1950-1959)
Leandro Antonio dos Santos¹
Resumo: Este texto tem por
objetivos entender a narrativa de Nelson Rodrigues no período dos Anos Dourados
tendo como suporte a obra “A vida como ela é...”, e a influência de sua
imagem e concepção estética como jornalista em sua coluna diária. Nelson esteve
inserido por meio de sua escrita nas tensões de sua época é revela pelos seus
tipos sociais da sociedade carioca em transformação, a transgressão, num contexto
de mudanças comportamentais, sua contribuição e altamente relevante para o
entendimento da família brasileira, principalmente nas imagens de feminino e
masculino. Intenta-se também destacar a sua maneira de conceber o jornal, de
seu processo de escritura, nas fronteiras da realidade e a ficção, e de sua
vivência social emanada das ruas, espaço de onde tanto fala. A Nova História
Cultural evidencia abordagens situadas no campo do cotidiano, nas relações de
gênero, na família e na imprensa como meio de compreensão da realidade vivida,
estas serão centrais na discussão proposta. Tentaremos elucidar as
representações sociais construídas por um escritor afinado com o seu tempo e as
práticas sociais que esses comportamentos ocasionavam. Observaremos ainda as
mudanças pelas quais a imprensa carioca passava e as críticas de Nelson
Rodrigues à este processo modernizador.
Palavras-Chave: Nelson Rodrigues; jornalismo; Anos Dourados.
Na tentativa de elucidar as
representações sociais produzidas por Nelson Rodrigues (1912-1980) no ambiente
do jornal, está a sua capacidade de criação e reprodução da realidade por meio
da coluna A vida como ela é..., esta
serviu como caixa de ressonância da sociedade no período de transformações politicas-estruturais,
culturais, tecnológicas, denominado de Anos Dourados.
Nelson recebeu a vocação jornalística do pai, Mário Rodrigues, que desde
cedo, já adolescente tomou contato com o universo composto por notícias e fatos
relacionados à coletividade urbana, aqui fluminense, local de onde partem as
suas impressões do homem que forja sua experiência nas relações sociais
construídas na cidade e no que ela tem de novo e liberalizante em relação aos
costumes vigentes.
__________________________
¹ Graduado em História pela
Universidade Federal de Goiás. Email: leandrosantoshis@gmail. com
Nelson Rodrigues revelou sua potencialidade de escrita por meio de
jornais, no contato direto com a sensibilidade coletiva, emitindo
representações sociais e deixando uma marca no imaginário popular, colocando na
ordem do dia tipos sociais das ruas, inquietações vividas por pessoas comuns,
dramas localizados, sentidos e compartilhados pela sociedade da década de 1950.
Segundo Xavier (2011) sua vida enquanto escritor de situações diárias do
cotidiano esta ligada a sua maneira peculiar de associar sensação é percepção
do mundo a sua volta, que lhe aparece por meio de conflitos, tensões e
dilaceramentos em torno das relações humanas e familiares que se apresentam
como catalizadoras das reações mais diversas em seus textos e na sociedade que
se inteirava deles.
O homem aparece em descompasso com
o que lhe aparenta ser o certo e o correto. O modelo a ser seguido e vigiado
não é mais hegemônico e natural. Mudam-se as regras, alteram-se os papéis, um
novo mundo surge das páginas do jornal, da vida própria do escritor que a
vivencia. Texto e contexto parecem-se entrelaçar-se num jogo dialético de
posições contrárias, mas que se fazem sentido num processo civilizador que
destrói a aparência das coisas, que renova a permanência do tradicionalismo do
que é ser homem e mulher no mundo contemporâneo.
Quando tinha apenas quatorze anos de idade se meteu em calças compridas e
foi trabalhar no jornal do pai, compondo um pequeno jornalzinho que saia junto
com A Manhã, ali o jovem escritor se
metera no ambiente da redação em um “tabloide de quatro páginas [...] era uma
espécie de “A Manhã” de calças curtas, embora Nelson já tivesse deixado de
usá-las. Ele queria ser como seu pai, um espadachim verbal” (CASTRO, 1992,
p.60).
Sua vida daí em diante passa a se confundir com os folhetins. Nesse
momento de contato inicial de uma viagem duradoura de toda uma vida ele se mostrava
em seus textos com “petulância de adolescente” com ataques pessoais, onde foi
que:
Logo no primeiro número do tabloide desencadeou um
ataque sem tamanho com o padre Félix Barreto, diretor do Ginásio do Recife,
acusando-o de ter torturado seu primo Augusto, aluno do ginásio, a mando do
governador Sérgio Loreto. “É inútil dizer que o padre Félix Barreto é um farrapo
humano desprezível”, bramava Nelson no artigo, “um reles bandido, um pobre
louco cujo cérebro a sífilis comeu e cuja lama é lavada durante duzentas vezes
na latrina”. Em outro trecho, taxava o pio padre Félix, futuro nome do colégio
no Recife, de “celebre violador de pretas” (CASTRO, 1992, p. 60).
O jornal que Nelson começará a escrever a metade deles foi destinado para
o Recife. Aos poucos na segunda edição do jornal deixava de lado as questões
pernambucanas
mas pedia o fechamento da Academia Brasileira de
Letras pela polícia, classificava Epitácio Pessoa de “uma pústula social” e
massacrava por atacado a Escola Nacional de Belas Artes, acusando-a de ser um
antro de “marmanjos imbecis” (CASTRO, 1992, p. 61).
O destino do jornal não reservará a Mário Rodrigues o sucesso desejado,
logo perdeu o controle para seu sócio Antônio Faustino Porto, por motivos de
dívidas que aos poucos foi ganhando espaço nos investimentos do jornal, foi
assim que Porto assumiu o controle da empresa, mas “para Mário Rodrigues,
tornara-se muito fácil abrir outro à hora que quisesse. Afinal, era ou não
amigo do vice-presidente Melo Viana? [...] Mário lançou seu novo jornal e o de
mais escandaloso sucesso: “Crítica”” (CASTRO, 1992, p. 68). Neste novo espaço
Nelson persistiria em torno da pagina de policia, se tornando um grande sucesso
de vendas.
Fato marcante em sua vida, e que marca de maneira a deixar marcas
profundas em sua escrita foi a morte de seu irmão Roberto Rodrigues em 1929,
que desencadeou a morte de Mário, e durante a Revolução de 30 a redação a “Crítica” teve
sua redação empastelada, deixando assim de existir. As:
Redações e oficinas foram invadidas e empasteladas.
Máquinas de escrever eram atiradas na rua, prensas eram destruídas a golpes de
canos de ferro, gavetas inteiras de tipos eram jogadas para o alto como
peneiras de café. Bobinas de papel atapetavam as ruas do Carmo, Ouvidor, Sete
de Setembro e Assembléia. Tudo ia sendo chutado, rasgado, demolido e, em alguns
casos, incendiado. Trazidos não se sabe de onde, galões de gasolina apareceram
magicamente e edições inteiras viraram fogueira. Foram invadidos “Crítica”, “A
Noite”, o “Jornal do Brasil”, “O País, “A Notícia”, “Vanguarda” e a “Gazeta de
Notícias” (CASTRO, 1992, p. 105-106).
A família de Nelson depois desse
acontecimento passou por uma grave crise financeira, por muito tempo procuraram
juntamente com seus irmãos por emprego, principalmente nos jornais “mas por
medo de desagradar os novos donos do poder” (CASTRO, 1992, p. 109) encontravam
dificuldades. Em 1931, Nelson começa a trabalhar em “O Globo”, tendo sua
carteira assinada somente em 1932. Em 1934 já estava com os primeiros sintomas
da tuberculose, “começou com tosse seca e uma febre, baixa mais persistente,
todas as tardinhas. Nelson estava muito magro” (CASTRO, 1992, p. 125).
Já na maturidade Nelson abandona o Globo passando a atuar nos Diário dos
Associados, especificadamente em “O
Jornal”, produzindo o seu primeiro folhetim “Meu Destino é Pecar” usava um
pseudônimo “Susana Flag” que aumentou significadamente a circulação do jornal,
foi assim que “O Jornal estava
dobrando sucessivamente, de três para seis mil, daí para doze mil e, no apogeu
de “Meu destino é pecar”, menos de quatro meses depois, chegara a quase trinta
mil exemplares” (CASTRO, 1992, p. 186).
Depois do estrondoso sucesso, começou outro folhetim “Escravas do Amor”
que obteve a mesma repercussão do anterior. Já então escrevendo peças Nelson se
aventura pelo teatro, “estava com a cabeça definitivamente no teatro, mas
precisava continuar escrevendo folhetins para sustentar-se” (CASTRO, 1992, p.
219).
A sua grande projeção se deu em 1951, “Nelson decolou do fundo do poço
para o que seria um salto mortal em sua vida: “Última Hora” – e “A vida como
ela é...”” (CASTRO, 1992, p. 228).
O convite para compor uma seção do jornal veio de Samuel Wainer
(1910-1980) que lhe sugeriu escrever sobre fatos relacionados à realidade “a
coluna poderia se chamar “Atire a primeira pedra”. Nelson aceitou mais que
depressa, mas sugeriu outro título, “A vida como ela é...” – com reticências”
(CASTRO, 1992, p. 236). De inicio se adaptava aos temas impostos pela redação
do jornal, mas logo depois “começou a inventar ele próprio às histórias. Samuel
Wainer levou uma semana para descobrir e, quando descobriu, era tarde: “A vida
como ela é...” já incendiara a cidade” (CASTRO, 1992, p.236).
Nunca ate então um jornal carioca apresentou de forma tão real os
habitantes da cidade, os espaços “tendo como cenários a Zona Norte, onde eles
viviam; o Centro, onde eles trabalhavam; e, esporadicamente, a Zona Sul, onde
só iam para prevaricar” (CASTRO, 1992, p. 237). O Rio de Janeiro de Nelson
Rodrigues da década de 1950,
[...] não haviam motéis, nem pílula e nem a atual
liberdade absoluta entre os jovens. A Zona Norte, quase sem comunicação com a
paradisíaca e permissiva Zona Sul, ainda preservava valores contemporâneos da
“Espanhola”. As famílias eram rigorosas e, o que é pior, muito mais famílias
moravam juntas do que hoje. Maridos, cunhadas, sogras, tias e primas
cruzavam-se dia e noite nos corredores dos casarões, sob uma capa de máximo
respeito. Nessa convivência compulsória e sufocante, o desejo era apenas uma
faísca inevitável (CASTRO, 1992, p. 237).
A forma como a escrita de Nelson se adaptou a realidade é de fato um dado
surpreendente, pela maneira de incitar a leitura das pessoas e curiosidade e
expectativa pela próxima história a ser produzida. O universo do texto estava
carregado da mais densa sensibilidade coletiva, do cotidiano dos leitores, de
suas vivências causa do sucesso que a coluna resultou na cidade. A sexualidade
latente que tomavam seus personagens ocasionou as mais diversas recepções e
imagens, como a de devasso e tarado, o que se pretendia era “esculpir o
personagem de si próprio” (CASTRO, 1992, p. 242).
Cabe destacar a importância do jornal Última
Hora para o processo de modernização da imprensa brasileira a partir da
década de 1950, criado a partir da amizade firmada entre Samuel Wainer e
Getúlio Vargas. Depois de sua posse como presidente da república percebe-se a
ausência de um jornal que cobrisse as noticias de seu governo. Em meio a essa
inexistência de propaganda, surge a Última Hora, um jornal dedicado a
apresentar notícias endereçadas ao governo, como canal direto com a população.
A trajetória jornalística de
Samuel Wainer e sua história na vida pública dentro da imprensa carioca é um
dos mais importantes e decisivos acontecimentos do jornalismo do país,
principalmente durante a metade do século XX, além de sua participação em
assuntos de natureza internacional.
Seu consequente sucesso profissional está, em grande parte, nas alianças
estabelecidas entre os governos e as elites políticas do país. O envolvimento
de Wainer com os assuntos relativos à esfera política rendeu grande notoriedade
a sua pessoa e “áurea” de jornalista sempre presente nas esferas de poder. Seu
reconhecimento deu-se pelo tom sempre polêmico, adjetivo com que passou a ser
enfatizado e lembrado pela posteridade. Podemos dizer que “sua importância
aparece auto justificada pelo teor de suas declarações sobre os bastidores da
política brasileira, nos períodos autoritário quanto democrático” (ROUCHOU,
2006, p. 346).
Sua biografia legou as mais
diversificadas facetas; estrangeiro, judeu, nacionalista, até mesmo chamado de
comunista, dono de jornal, jornalista e, sempre intimamente ligado ao poder
público durante três décadas. Isto o imortalizou como sendo o primeiro
jornalista brasileiro a compor um jornal de natureza inovadora, ao mesmo tempo
moderna e acima de tudo escrito e dirigido por um próprio jornalista.
Wainer, em seu percurso no Brasil, lutou, de maneira pertinente, em
relação aos problemas advindos de sua identidade. Sua origem, de família judia,
estava na Bessarábia, na religião judaica, mas o que fica expresso sempre em
suas memórias é o fato de nunca ter deixado de posicionar-se diante de sua
verdadeira identidade, sempre “mal construída”, em relação a seus três filhos.
Nesse impasse, Lacerda iniciou, em 1953, uma feroz campanha tentando, de todas
as formas, provar a nacionalidade de Wainer, pois, de acordo com as leis
brasileiras, um estrangeiro não poderia praticar a atividade jornalística no
Brasil.
Logo este traço étnico se fez presente em toda a sua vida, como fica
expresso desde o início de sua carreira ao lado de Vargas:
Da entrevista com Vargas com alusão a sua origem (o profeta Samuel) ás reuniões de
empresários ou coberturas, à condição judaica se fez presente. Uma passagem que
me chamou a atenção foi a determinação de cobrir os julgamentos de Nuremberg. É
possível, em sua trajetória, perceber variações relevantes em suas atitudes
quanto a essa celebrada “condição judaica”. Ela nem sempre foi celebrada, nem
tão assumida e aberta (ROUCHOU, 2006, p.354).
Imigrante, nascido de pais pobres, essencialmente judeus, que vieram a
morar no bairro de Bom Retiro, em São Paulo. Seu começo na carreira
jornalística deu-se num jornal dirigido à comunidade judaica, conhecendo, aos
poucos, o universo da imprensa. Logo criou a revista Diretrizes, em 1938, de caráter marcadamente comunista, mais
basicamente antifacista. Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a
revista se encerrava e Samuel Wainer viajou aos Estados Unidos e depois Europa
como correspondente de jornais cariocas. Em 1945, conseguiu cobrir o Tribunal
de Nuremberg, sendo, assim, o único jornalista brasileiro a cobrir tal
relevante acontecimento. De volta ao Brasil, em 1947, como repórter famoso e de
muito prestígio, ingressou no Diário dos
Associados, de Assis Chateubriand.
Mas o momento chave em sua profissão de jornalista foi em 1947, quando
Wainer encontrou sua grande oportunidade. Esta veio com o intuito de produzir
uma reportagem acerca da questão do trigo, quando decidiu entrevistar Getúlio
Vargas. O então ex-presidente revelou, em primeira mão, que voltaria para a
vida política. Assim “começava a união entre os dois que resultou na eleição de
Vargas e na criação do jornal Última Hora,
dado pelo recém-eleito presidente Vargas a Samuel Wainer em 1952” (ROUCHOU, 2006, p. 352).
Logo, em 31 de janeiro de 1951, Getúlio Vargas tomou posse como
presidente da República do Brasil, reuniu seu ministério e advogou pelo fato de
não existir um jornal para cobrir os acontecimentos de seu governo e que
afastasse a “conspiração do silêncio que a imprensa lhe impusera” (BARBOSA, 2007,
p. 170). No decorrer dos acontecimentos Samuel Wainer foi convidado para um
jantar com a família de Vargas, surgindo a ideia de criar o novo jornal.
A partir dessa grande amizade passou a exercer grande influência perante
Vargas, “quase um conselheiro”, um “emissário”. Sua posição no nascente jornal
o colocou diante de um papel privilegiado, o qual, até então, nenhum outro
jornalista alcançara em sua época. Sua passagem de repórter do Diário dos Associados para dono do
jornal Última Hora foi tomada de grande
surpresa, como comentou em entrevista:
Quando retornei da Europa o Assis Chateaubriand me
convidou para os "Associados", em julho de 1947. Aceitei. Primeiro
porque eu queria conhecer por dentro uma grande empresa, o ventre de uma grande
empresa. Porque ele me pagou um salário excelente pra época. Eram 20 contos,
equivalia hoje a 200 mil cruzeiros, quebrou todos os padrões. Ele sabia, ele
tinha um instinto, ele já tinha lido coisas minhas. Aí entrei nos "Diários
Associados" onde eu vi por dentro o chamado grande jornalismo. Fui editor
nos "Diários Associados", fui secretário de redação, redator,
colunista, mas principalmente repórter. Foi quando descobri Getúlio [...] Dessa
amizade com Getúlio nasceu a "Última Hora" (WAINER, 1979, p. 5-6).
Samuel Wainer aproveitou do momento político para garantir o sucesso das
notícias publicadas no jornal. Para ele nada mais era interessante do que a
própria imagem de Getúlio Vargas. Criou duas empresas: uma gráfica, a Érica, e a outra editorial, a Editora
Última Hora. Para ajudar na viabilização da gráfica contou com os empréstimos
do banqueiro Walter Moreira Salles e com o presidente do Banco do Brasil,
Ricardo Jafet, além de EuvaldoLodi, empresário e presidente da Confederação
Nacional da Indústria, dentre outros como a Caixa Econômica Federal e o Banco
Hipotecário do Crédito Real, através de Juscelino Kubischeck. Por isso,
Portanto a "Última Hora" não foi criada
acidentalmente, ela ia sendo criada à medida que a gente criava novos quadros e
novas ideias. Eu senti que a popularidade de Getúlio me dava uma comunicação
com todas as camadas sociais e a linha nacionalista me dava comunicação com a
camada dirigente do novo empresariado brasileiro. Então, a "Última
Hora" foi, realmente, um produto de uma imensa vivência jornalística e
política (WAINER, 1979, p. 6).
Esse veículo de comunicação de marca partidária levava consigo de roldão
uma série de inovações nas maneiras de conceber o jornal a partir da década de
1950. Novos ventos começaram a soprar na modernização de nossa estrutura
jornalística, pela influência do modelo norte-americano que traziam consigo
elementos como a objetividade a neutralidade frente aos fatos do cotidiano. As
reformas foram introduzidas por Samuel Wainer, não é a toa que seu jornal se
tornou um grande “divisor de águas” na tentativa de se incorporar uma maior
profissionalização e aperfeiçoamento das técnicas implantadas na produção do
jornal. O jornalismo até então, era o lugar predileto dos literatos que usavam
desse instrumento para divulgar as suas produções, mas foi assim que:
Na década de 1950,
isto começou a mudar, principalmente no Rio de Janeiro, onde o jornalismo
empresarial foi pouco a pouco substituindo o político-literário. A imprensa foi
abandonando a tradição de polêmica, de crítica e de doutrina, substituindo-a
por um jornalismo que privilegiava a informação (transmitida
"objetiva" e "imparcialmente" na forma de notícia) e que a
separava (editorial e graficamente) do comentário pessoal e da opinião
(RIBEIRO, 2003, p. 148).
A história do nosso jornalismo se configurava como uma mescla com a
literatura, não havia pretensões de compor os fatos tais como se passaram de um
jornalismo tradicional, literário, incipiente, passávamos assim para um
jornalismo industrial, produzido para as grandes massas. Devido a uma própria
demanda da modernização das cidades o público leitor queria uma linguagem mais
adequada e isenta de qualquer intenção por parte daquele que escreviam:
[...] uma demanda por
rapidez, tanto na instância da produção quanto na do seu consumo. O ritmo cada
vez mais acelerado da vida moderna exigia adaptações para tornar os jornais
veículos dinâmicos para as notícias e para a propaganda (RIBEIRO, 2003, p.
150).
Contribuíram também para a modernização e profissionalização da informação
o fato de alguns jornais realizarem altos pagamentos salariais, acima da média
(como foi o caso do Última Hora), e também pela criação do ensino superior de
jornalismo, criado pelo decreto n° 5.480, de 13 de maio de 1943 por Getúlio
Vargas. A implantação do curso de jornalismo no Brasil se deu inicialmente na
Universidade do Brasil (1948) e posteriormente na Pontifícia Universidade
Católica (1951). O quadro geral dessa revolução no campo da comunicação ocorreu
de forma ampla e intensa, o mercado se estruturou em novas bases promovendo a
disseminação pelo país.
A maioria dessas
mudanças - redacionais, editoriais, gráficas, empresariais e profissionais -
não foi introduzida no jornalismo carioca de maneira gradual e espontânea.
Apesar de já virem sendo gestadas há muito tempo, só conseguiram se impor
através de um processo consciente de reformulação, levado a cabo de forma
pioneira por algumas empresas jornalísticas e por alguns profissionais
(RIBEIRO, 2003, p. 153)
Os jornais pioneiros nesse vulto de novos empreendimentos foram o Diário Carioca, a Tribuna da Imprensa, a Última
Hora e o Jornal do Brasil.
Nota-se que esses jornais estão alinhados com o campo político, influenciando
as notícias e o modo de se fazer jornalismo na época.
Defendo, no entanto, a
hipótese de que o aspecto político jamais desapareceu totalmente, exercendo um
papel fundamental - estrutural – na dinâmica das empresas jornalísticas. Apesar
de se terem afirmado imperativos de gestão e de administração, estes ainda não
eram suficientes para garantir a autonomia das empresas. Por isso, os jornais
jamais deixaram de cumprir um papel nitidamente político. O apoio a
determinados grupos que estavam no poder ou na oposição (dependendo da
conjuntura) era essencial para garantir a sobrevivência de algumas empresas,
fosse através de créditos, empréstimos, incentivos ou mesmo publicidade
(RIBEIRO, 2003, p. 156).
A década de 1950 permitiu esse desenvolvimento no tocante à
industrialização do país, principalmente, do setor industrial e concomitantemente
do gasto com publicidade faz-se acompanhar esse caminho.
Nelson Rodrigues se encontrava no olho do furacão, e nele encontramos o
discurso da contradição da linguagem literária, com o texto jornalístico, na
essência da comunicação, esses dois campos se entrelaçam com empréstimos
recíprocos, muito pela dimensão da linguagem que permeia essa relação. Foi
nesse ritmo que Nelson conheceu o Última Hora e
Em sua casa nova, iria promover uma revolução na
imprensa brasileira, adotando a técnica americana de uniformizar os textos e
implantando a novidade do “copy-desk”
– redator encarregado de escoimar as matérias de verbos como, por exemplo,
escoimar. Ninguém mais podia ser literato na redação, a não ser em textos
assinados e olhe lá [...] Nelson passional como uma viúva italiana, achava
aquilo como um empobrecimento da noticia e passou a considerar os “copy-desks”
os “idiotas da objetividade” (CASTRO, 1992, p. 231).
Nelson era, portanto um idealizador de outra concepção de jornal, mais
identificado com as liberdades de escrita, com o emprego da subjetividade, herança
do jornalismo praticado pela sua família.
Sou da imprensa anterior ao copy desk. Tinha treze
anos quando me iniciei no jornal, como repórter de policia. Na redação não
havia nada de aridez atual e pelo contrário: - era uma cova de delícias [...]
De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na
redação, seja repórter do setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade
estilística. E o copy desk não respeitava ninguém (RODRIGUES, 1995).
Em 1955, a
família de Nelson obteve ganho favorável pelo empastelamento de “Crítica”
depois de vinte quatro anos depois da destruição do jornal. Depois de passar
pela televisão como comentarista esportivo na TV Rio com a famosa “Resenha Facit”,
e recebido pelo Correio da Manhã para começar a escrever suas “Memórias”, o que
impressionava era seu vasto currículo e experiência na área.
Fizera parte dos jornais e revistas no berço, na
plenitude e na morte. Atravessara todas as revoluções gráficas, estilísticas e
empresariais da imprensa naquele período e, nem que fosse como coadjuvante,
acompanhara de perto todas as transformações politicas do Brasil. Numa delas, a
de 1930, tinha sido até vitima [...] E, de fato, só o currículo profissional de
Nelson já impressionara. Fizera reportagem da polícia, futebol, crítica,
crônica, conto, folhetim, até mesmo consultório sentimental. Escrevera com seu
nome, com pseudônimos e com o nome dos outros. A lista dos jornais e revistas
importantes pelos quais passara dava água na boca: “A Manhã”, “Crítica”, “O
Globo” (três vezes), “O Cruzeiro”, “O Jornal”, “Diário da Noite” (duas vezes),
Última Hora”, e “Manchete”, fora os jornais e revistas menores – e mais o
“Jornal dos Sports” do qual era uma espécie de móveis e utensílios de que
ninguém se dava conta” (CASTRO, 1992, p. 354).
Nelson é um homem que foi forjado
dentro do jornal, sua vida se confunde com uma parte da história da imprensa
brasileira, desde cedo sua experiência como jornalista do cotidiano, lhe deu a
habilidade em compor com tamanha realidade as relações sociais entre homens e
mulheres na década de 1950 em sua coluna A
vida como ela é..., em um período de mudanças comportamentais e
tecnológicas, o escritor reproduz as tensões de sua época por meio de suas
representações sociais.
Grande parte de sua obra foi construída nas páginas do jornal, no diálogo
com os leitores, no tratamento da linguagem das ruas, de seus tipos sociais e
ambientes de convívio. Nada se compara a seu nível de realidade, a sua forma de
retratar o homem e seus dilemas frente à modernidade. Num tom sempre crítico e
inovador Nelson rompe com o moralismo estagnado e com a hipocrisia social e
apresenta o homem com intensa verdade, caracterizado segundo sua própria
natureza.
O cotidiano retratado em sua coluna jornalística instaura o começo
incipiente de uma onda de liberdade, de inversão dos papéis sociais, no que se
refere o que é ser homem, é o que é ser mulher na metade do século XX. Nelson
quebra em sua coluna o quadro social imposto pela época, onde a mulher cada vez
mais ampliava a sua participação no mercado de trabalho e nos índices de
escolaridade.
As mulheres estão representadas como dominadoras, sentem desejos por
outros homens que não são seus maridos, fragilizando a honra do masculino e
consequentemente a sua capacidade de impor seu domínio no campo da vida
privada. O tempo da coluna é outro que a sociedade da época não quer
reconhecer, por isso do impacto de suas representações para o período, que
ainda detinha fortes discursos em torno da sexualidade e do casamento.
Em um momento de intensas mudanças em variadas esferas da vida, a área da
imprensa não ficou de fora, o jornalismo tradicional-literário de Nelson estava
sendo severamente ameaçado, o estilo de escrita rebuscada, com intensa marca
pessoal do escritor, lentamente foi sendo esquecida pela prática direta e sem
rodeios da nova notícia. E a narrativa rodriguiana se assentava sobre essa
perspectiva entre realidade e ficção, jornalismo e literatura. Hoje:
Percebemos que o jornalismo feito por Nelson Rodrigues
é totalmente oposto ao que hoje chamamos de jornalismo convencional. Longe da
objetividade e do texto mecânico e engessado, o texto rodriguiano é despojado e
subjetivo. A experiência como repórter policial e a elaboração de matérias
designadas à seção de polícia, todos influenciaram as formas literárias do
autor. Os mesmos temas – amor, adultério e morte – são acrescidos de elementos
originários desta experiência de jornalista e, articulados, constituem partes
fundamentais do universo rodriguiano (SALES, 2011, p. 329).
Seu texto abarcava duas características fundamentais, a realidade e a
ficção, duas faces da sua estética textual, a capacidade de retratar
acontecimentos do cotidiano, filho de pai jornalista, legou as habilidades que
o tornaram um grande jornalista do seu tempo onde “a ficção era uma tradição da
família, e ele a levou a sério” (CLARK, 2002, p. 2). Por onde passou alavancou
as vendas dos jornais implantaram o desejo de leitura e mortalizou personagens
inesquecíveis no ambiente das redações dos jornais.
A conjuntura da década de 1950 reformou de forma atuante o que sabemos e
entendemos de jornalismo nos dias de hoje, eliminou situações convencionais e
pessoais de quem os escreviam e permitiu um maior alcance dos impressos na
sociedade garantindo o acesso a uma informação rápida e objetiva e de massa.
A separação de jornalismo e literatura se efetivou na década de 50, essa
associação não mais seria praticada e relegada ao segundo plano. Nelson
combateu veementemente essa nova postura devido a sua atuação herdada de sua
família, e que perdia cada vez mais espaço pelos novos jornalistas da época.
Nelson foi um intelectual engajado nas questões do seu tempo, seu
discurso crítico as reformas na escrita e renovações no campo do texto
jornalístico, lhe rendeu a sua imagem para a posteridade na compreensão da
historicidade das relações tecidas entre literatura e jornalismo na década de
1950.
REFERÊNCIAS
BARBOSA, Marialva. “Cinqüenta Anos em
Cinco”: consolidando o mito da modernização. In: _____. História Cultural da Imprensa: Brasil, 1990 – 2000. Rio de
Janeiro: Maud X, 2007.
CASTRO, Ruy. O Anjo Pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São
Paulo: Cia das Letras, 1992.
CLARK, Linda. Nelson Rodrigues: jornalismo e literatura na dose certa. Estudos de
Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 17, p. 3-11, jan. /fev. 2002.
Disponível em: <www.gelbc.com.br/pdf_revista/1701.PDF.>
Acesso em: 15 abr. 2012.
RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Jornalismo, literatura e política: a
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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
AS REPRESENTAÇÕES DO FEMININO EM NELSON RODRIGUES: CONFLITOS ENTRE A CASA E A RUA
Resumo: Neste texto, a intenção é adentrar a década de
1950, onde a mulher, cada vez mais, intensificava o processo de emancipação de
sua antiga condição histórica herdada. Sua participação nos espaços públicos da
cidade estimulou a redefinição dos papéis sociais estabelecidos e contribuíram
para a superação do ideal de dominação masculina que imperava sobre ela. O
objetivo consiste em compreender as representações elaboradoras por Nelson
Rodrigues, expostas no jornal a Última Hora, em sua coluna diária “A
vida como ela é...” percebendo nos contos que aí figuravam a presença do
imaginário popular em torno das mulheres e as imagens por ele elaboradas do
agitado cenário urbano em transformação da sociedade carioca de meados do
século XX.
Palavras-chave: privado, público, gênero.
Abstract:
This paper consists in entering the 1950 decade,
when women were increasingly intensifying the
emancipation process from their inherited former historical condition. Their
participation in the public spaces of the city stimulated the already
established social roles redefinition, and contributed to overcome the ideal of
masculine domination that reigned over them. The goal is to understand
Rodrigues’ representations exposed in his daily column “A vida como ela é…” in Última Hora newspaper, noticing in each
of those short stories the presence of the popular imaginary around women, the
images of the fussy urban scenario in transformation from the society in Rio de
Janeiro around the 20th century created by Nelson Rodrigues.
Key-words:
private, public, genre.
Nelson Rodrigues (1912-1980), dramaturgo
consagrado, um dos poucos escritores de nossa língua portuguesa que retratou de
forma verossímil o ambiente dos espaços públicos e dos agentes sociais neles
envolvidos da cidade do Rio de Janeiro no decorrer de meados do século XX.
Aqui nos ocupamos da década de 1950, período
rico de inspiração para a composição das mais variadas obras do autor e de
percepção da sociedade a sua volta. Sua popularidade e suas histórias estiveram
intimamente associadas aos jornais impressos e à consequente circulação e
recepção dos mesmos na presença da coletividade urbana carioca.
Grande parte de sua literatura esta associada ao
folhetim diário no qual atuou boa parte de sua vida. Aqui destacamos os anos de
1951 e 1961, no jornal a Última Hora, de Samuel Wainer. A princípio sua coluna
destinava a compor a seção do noticiário policial, no qual já havia trabalhado
durante oito anos de sua vida, lançada em outubro de 1951, com o título “Atirem a primeira pedra”, sendo logo, em
16 de novembro de 1951, alterada para “A
vida como ela é...”. Para Wainer a coluna diária passaria a compor os fatos
inerentes ao resgate da realidade. Nelson aceitou de bom gosto o convite, logo
sugerindo e alterando o nome de sua coluna, então, “muito mais sugestivo, ele
achava, e dava um toque de fatalidade, de ninguém-foge-ao-seu-destino. Samuel
Wainer concordou e Nelson foi escrever a primeira coluna” (CASTRO, 1992,
p.236). A influência do jornalismo norte-americano estava sendo bastante
sentida na época, elementos como objetividade e neutralidade começavam a ser
idealizados para a renovação da imprensa brasileira e carioca.
Suas atraentes histórias permearam o universo
dos habitantes da cidade, estimulando o hábito da leitura, foi com essa coluna
que Nelson Rodrigues tornou-se uma personalidade de caráter popular, além de
elevar a sua fama de “tarado” em meio à opinião pública.
“A vida como ela é...” com um
fascinante elenco de jovens desempregados, comerciários e “barnabés”, tendo
como cenários a Zona Norte, onde eles viviam; o Centro, onde trabalhavam; e, esporadicamente,
a Zona Sul, aonde só iam para prevaricar (CASTRO, 1992, p.237).
Utilizando dos contos da obra como suporte
documental na análise dos comportamentos desviantes e de valores morais
inerentes e esperados pelas mulheres, se nota cada vez mais a ameaça e a
dissolução do poder de dominação masculina, frentes às oportunidades que a
industrialização da sociedade suscitava, e das novas formas de sociabilidades
encontradas.
O texto literário tratado de acordo com sua
historicidade e especificidade se torna uma fonte rica para a decodificação de
variados discursos que por vezes outros documentos oficiais não sejam capazes
de conter. A interlocução forjada entre literatura e história permite “compreender
a obra literária como resultado da sublimação de dados sociais que, de um lado,
fazem dela expressão de uma sociedade e de um momento histórico” (CANDIDO,
1985).
O tema recorrente nas histórias produzidas por
Nelson girava em torno da infidelidade feminina, que nessa época pertencia à
esfera da vergonha, considerada um verdadeiro tabu dentro das relações
amorosas, no que concerne a honestidade sexual da imagem feminina. Seu destino
era a vida de dona de casa, responsável pelo cuidado dos filhos, do marido e da
unidade doméstica. Por isso a intensa receptividade da narrativa de Nelson
perante os leitores da cidade, no ato de desvelar assuntos recorrentes a esfera
do íntimo e da honra familiar. Como afirma Beatriz Polidori Zechlinski,
Dessa forma a relação das histórias de “A vida como ela é...” com a realidade
não se baseava no fato da traição ou não das mulheres, mas na possibilidade
dessas traições, que povoava a imaginação das pessoas, suscitando a leitura da
coluna do Jornal Última Hora (ZECHLINSKI, 2007, p.410).
O contexto social estava se alterando e
reinventando as imagens ligadas ao feminino e ao masculino, estabelecidas nas
práticas sociais. Estas não ficaram imunes ou mesmo estáveis num ambiente de
intensa industrialização, modernização e individualização, causando uma efetiva
redefinição de papéis, e trazendo consigo um quadro de tensões sociais,
gestadas em torno das relações de gênero e normas de conduta, perpetuadas no
seio do universo familiar.
A intensificação da participação das mulheres no
espaço físico urbano da cidade, com maior penetração nos locais de trabalho e
acesso a educação, lugares até então pouco explorados por elas, trouxeram
consigo novas imagens da feminilidade na contramão dos valores existentes que a
circundavam diante dos comportamentos esperados por elas, dentro do universo
doméstico e sobre a tutela da autoridade masculina.
Por isso o campo das representações rodriguianas
é um roteiro pertinente e possível na busca por perceber os conflitos das
relações de gênero e amorosas no período dos anos da década de cinquenta e
desvendar o imaginário social da sociedade carioca por meio das representações
sobre a classe média urbana. As mais variadas temáticas tratadas diariamente
por meio da coluna iam de encontro com a realidade social apresentada pelo
cotidiano dos leitores.
A imagem feminina se faz elemento central dentro
das tensões provocadas e tratadas por Nelson, diante das novas oportunidades
advindas da modernização do espaço físico em transformação, estabelecendo
contradições evidentes no que concernem as relações firmadas e naturalizadas
entre o público e privado. A superação dos estigmas e obstáculos enraizados na
instituição familiar diante da presença da mulher na esfera da vida pública
urbana, até então destinada aos trabalhos domésticos, aos cuidados com os filhos
e a integridade moral da família, foram expostos por meio de sua narrativa que
refletia o realismo das situações retratadas (BARTHES, 1984), que não se cansa
de explicitar aspectos vivenciados pelo autor em diversos lugares da cidade, no
cenário das ruas, dos bares, dos escritórios e das repartições públicas,
espaços de lazer...
A dicotomia entre o público e o privado, o lar e
a rua, se tornam constantes nos confrontos que perpassavam as relações de
gênero em meados do século XX. A dissolução dos velhos princípios da família
patriarcal brasileira no que se refere ao controle social sobre o corpo
feminino e a autoridade masculina é projetada com relevância dentro da imersão
psicológica encontrada nas histórias contadas por Nelson e no constructo de
seus mais variados personagens, sempre na “relação tão visceral com a cidade,
sua história, cacoetes e paixões” (DIAS, 2005, p.101).
A realidade social carioca das ruas foi o
laboratório existencial da experiência de vida de Nelson. Sua infância,
impressões, acontecimentos que permearam a sua família, na região da Aldeia
Campista, são relatadas com intenso destaque na estética de suas narrativas,
sua coluna era lida com entusiasmo pelo fato de expor os fatos corriqueiros da
sociabilidade urbana, priorizando questões que se sucediam em torno das
relações amorosas na região da Zona Norte do Rio de Janeiro, onde o intercâmbio
com o centro, local de trabalho, e a Zona sul, espaço de divertimento e
encontros furtivos, estão em evidência nos contos de A vida como ela é...
O interesse maior de investigação deste estudo
se encontra no campo das normas de conduta e da honra sexual, para isso,
encontramos pesquisas relevantes como a de Sueann Caulfield, pesquisadora norte
americana que veio ao Brasil interessada em aprofundar mais sobre crimes
sexuais e valores que giravam em torno da honra sexual pelos mais amplos
setores organizados da sociedade, e num plano maior, como esse conceito estava
intimamente ligado a modernização da nação. Ela, por sua vez, concentra a sua
obra entre a Primeira Guerra Mundial e o inicio do Estado Novo, onde “para
muitas autoridades religiosas da época, assim como para as elites políticas e
profissionais, a relação era simples: a honra sexual era à base da família, e
esta, a base da nação” (CAULFIELD, 2000, p.26).
A força de moralização da instituição familiar
preocupava e afetava todo o meio social, seu suposto desajuste se configuraria
em situação de caos, e a consequente dissolução da família. Nesse sentido, o
que se pode verificar na formação desse quadro era,
[...] o que essas elites não percebiam, ou pelo
menos não admitiam, era que a honra sexual representava um conjunto de normas
que, estabelecidas aparentemente com base na natureza, sustentavam a manutenção
da lógica das relações desiguais do poder nas esferas privada e pública
(CAULFIELD, 2000, p. 26).
O conceito de honra sexual era tomado de
diversos significados pela opinião pública, ganhando destaque durante o século
XX, principalmente durante o governo de Getúlio Vargas, e seus esforços em
zelar pela moral pública e pelos valores inerentes da família.
A família brasileira, que durante muito tempo
vem sendo pensada como um ramo extenso, sob a estrutura do modelo patriarcal,
delimitada pelo poder do masculino sobre os demais membros, como afirma
Gilberto Freyre (1987) partir dos anos 50 passou a ser rigidamente contestada
por inúmeros historiadores que
[...] passaram a expandir suas pesquisas para
além das pesquisas de elite, encontrando uma grande variedade de organizações
familiares, incluindo, em muitas regiões, inúmeras famílias chefiadas por
mulheres. Esses pesquisadores demonstraram que essa organização era muito mais
diversificada e a sociedade muito mais dinâmica do que estabelecia o modelo de
Freyre. Mesmo membros da elite levavam vidas que desviavam dos requisitos
morais desse modelo (CAULFIELD, 2000, p.30).
Para o antropólogo Roberto Da Matta “a casa é o
espaço privado da ordem, da hierarquia social natural baseada em sexo e idade;
a rua, o espaço desprotegido do público da desordem, anonimato e perigos morais
e físicos” (CAULFIELD, 2000, p.33). Essa oposição tem instigado os
historiadores na investigação dos meandros conferidos a esfera pública e
privada.
Focalizando nessa dualidade existente entre os
planos do social rivalizados, Maria Izilda Matos, afirma sobre a relevância da
categoria gênero ao perceber a historicidade entre o público/privado,
Nesse sentido, a
reconstrução das categorias público e privado a partir da perspectiva feminina
pode ajudar a clarificar a questão. Os limites entre o público e privado foram
mais explicitados com a definição das esferas sexuais e da delimitação de
espaços para o sexo... A representação do lar e da família em termos naturais,
e da esfera pública, ao contrário, como instância histórica, foi uma herança
vitoriana da qual emerge o dualismo público/privado, reafirmando o privado como
espaço da mulher, ao destacar a maternidade como necessidade, e o espaço
privado como lócus da realização das potencialidades femininas
(MATOS, 1997, p.99-100).
Com a disseminação da corrente historiográfica
conhecida por Nova História Cultural
tem-se, cada vez mais, se desenvolvido estudos acerca do imaginário, da
sexualidade e das relações de gênero. Assuntos relativos ao desvendamento das
práticas cotidianas, aos comportamentos sociais e valores de uma dada cultura
passaram a ser tratados na ordem do dia, desviando o olhar de inúmeros
historiadores para as diversificadas imagens que captam as estruturas
simbólicas e seus processos, e mecanismos de divulgação localizados na
tessitura do social. Compreendendo os componentes da cultura, esta, por sua
vez, pensada “como um conjunto de significados, partilhados e construídos pelos
homens para explicar o mundo” (PESAVENTO, 2005, p.15).
Percebendo a ordem dos acontecimentos numa
perspectiva da longa duração ainda no século XIX, observa-se que,
Embora os homens da elite frequentassem diversos
espaços urbanos, as senhoras e as senhoritas geralmente não se expunham pelas
ruas, mantendo-se em espaços privados protegidos, debruçadas sobre as janelas
ou reunidas em cadeiras a porta da residência (CAULFIELD, 2000, p.111).
A figura da mulher no século XIX encontrava-se
rigidamente atingida pelas medidas moralizantes. O instinto maternal e a
inibição sexual inata faziam com que a mulher “normal” fosse submissa e casta,
ao passo que a fragilidade psíquica a tornava suscetível a contaminação física
e moral. Sua função maior era a vida doméstica, porque o “espaço público era
domínio dos homens, mais agressivos por natureza. O instinto sexual mais
desenvolvido e o fraco senso de pudor justificavam sua liberdade sexual. Para
muitos, a abstinência sexual era até prejudicial à saúde do homem” (CAULFIELD,
2000, p.120).
Aos poucos esse quadro foi sendo superado de
forma lenta e gradual ocasionados por fatores internos da própria cidade e
externos, que refaziam os obstáculos historicamente construídos no que consiste
ao aumento do numero de jovens de classe média e alta, que passaram a
frequentar as áreas ainda antes inexploradas por elas.
A autonomia feminina se tornava um ameaça para a
resistência de imposição masculina dentro do lar. Para a época da década de
1950, o adultério era associado à esfera da vergonha, um verdadeiro tabu
social, tido como escândalo social, associado às mulheres, enquanto para os
homens era considerado um comportamento característico, normal e natural ao seu
instinto, levando sempre a poligamia. Mary Del Priore, em seu livro História do Amor no Brasil, destaca que,
“a infidelidade masculina era considerada um problema de foro íntimo, não
manchando a reputação das esposas traídas, a infidelidade feminina significava
escândalo social e estava associada ao crime” (DEL PRIORE, 2005, p.265).
O adultério foi tema central e possessivamente
perseguido por Nelson Rodrigues em seus contos, com histórias trágicas, que
como ele mesmo disse, saíam de casos que lhes contavam no ambiente inspirador
dos subúrbios cariocas, ajudou a efetivar a sua fama de “tarado” e criou
empecilhos para se tornar um dos maiores contistas de nossa língua. Em seu
livro de memórias, salienta o intenso interesse dos leitores com a publicação
da coluna diária, pois, “quando saí da Última
Hora, e acabei A vida como ela é...
o telefone não parava. Homens e mulheres queriam saber se não ia sair mais e por
quê. Dir-se-ia que o problema do brasileiro é em ser – ou não ser traído”
(RODRIGUES, 1967, p.98).
Nelson mais do que nunca sabia encantar e
provocar os leitores com histórias de mulheres adúlteras e transgressoras, um
assunto que se tornava palpitante naquela época, segundo o que ele diz, “se as
novas gerações me perguntassem o que era A
vida como ela é... diria: era sempre a história de uma infiel” (RODRIGUES,
1967, p.98), por isso o sucesso, em torno da seção jornalística, pelo fato da
preocupação com tal questão permear o imaginário popular, da coletividade estar
atenta a tais questões que influenciavam e determinavam o universo familiar, e
principalmente as imagens que a sociedade atribuía à moral das mulheres.
Mas o interessante está no sentido das histórias
destinadas a evidenciar aquilo que estaria sendo abominado pelos habitantes da
cidade. Aí se encontra o nível de ironia exposta na obra e usada como recurso
de comunicação com o publico leitor. Os códigos de moralidade vigentes estariam
sendo duramente atacados e criticados por suas personagens retiradas do próprio
contexto analisado, gerando polêmicas e debates, sendo comumente taxado de
“tarado”, “pervertido”, e acima de tudo inimigo da família brasileira e dos
bons costumes que a regiam.
Nelson Rodrigues se sentiu atraído pela vida jornalística desde sua
adolescência quando inaugurou o seu próprio jornal A Alma Infantil, um tabloide de quatro páginas. Ele “queria ser
como seu pai, um espadachim verbal” (CASTRO, 1992, p. 60). Foi em meio ao
contexto da Rua Alegre, no qual vivenciou e se impregnou das mais
diversificadas histórias passadas na vizinhança e dentro de sua própria
família, que Nelson “espremeria até a última gota de suco em suas futuras
peças, romances, contos e crônicas” (CASTRO, 1992, p.22).
No conto “A dama da lotação”, um dos contos mais destacados da obra e
que resultou em filme e telenovela, percebe-se o elemento conflitivo de sua
narrativa, a suposta traição da mulher, que remete a uma fúria incontestável do
marido. Carlinhos vai aos poucos desconfiando da fidelidade da esposa, Solange,
que pegava a lotação, e sempre se encontrava com um homem diferente e o traía.
Com a descoberta da infidelidade da esposa, Carlinhos se mete em uma cama e se
dispõe a fingir de morto. Evidencia-se nesse conto uma crescente fragilidade da
autoridade masculina perante o comportamento da esposa, o marido se sente
desafiado sobre o domínio do lar e a perda da honra.
Em “Casal de três”, o personagem Filadelfo se dirige até o sogro, o Dr.
Magarão, e apresenta sua situação de indignação perante a sua vida conjugal.
Casado com Jupira, comenta que sentia de fato uma melancolia tremenda
(RODRIGUES, 1992, p.27). Essa constatação era refletida pela falta de capricho
de sua esposa, “não se enfeitava, não perfumava, até cheirava mal” (RODRIGUES, 1992, p.28). Porém, após um mês,
Filadelfo percebe alterações no comportamento da esposa, agora “a mulher
pintada, perfumada, se atira aos seus braços” (RODRIGUES, 1992, p.28). A partir
da nova personalidade apresentada por Jupira, aos poucos, começa a desconfiar e
se preocupar perante o sogro, este, por sua vez, o adverte para prescindir de
levar a sério a representação de sua mulher e tecer suspeitas sobre ela. Dias
depois Filadelfo recebe uma carta anônima nos seguintes dizeres: “tua mulher e
o Cunha”, este descrito como “o seu maior amigo e jantava três vezes por semana
ou, no mínimo, duas, com o casal. A carta anônima dava até o número do edifício
e o andar do apartamento em Copacabana onde os amantes se encontravam”
(RODRIGUES, 1992, p.29). A partir dessa constatação constrói um estado de
ciúmes do seu amigo Cunha, diante das imagens de transformação da mulher,
“certa vez jantavam os três, quando cai
guardanapo de Filadelfo. Este abaixa-se para apanhar e vê, insofismavelmente,
debaixo da mesa, os pés da mulher e do Cunha, numa fusão nupcial, uns por cima
dos outros” (RODRIGUES, 1992, p.30).
Ambos os contos retratam os conflitos dentro do ambiente doméstico: a
mulher que sente desejos por outros homens que não os seus maridos, e vai
procurar outras relações fora de casa e comete o adultério.
O Código Civil, de 1916, expressa o pensamento acerca do adultério e
suas implicações dentro da esfera das relações íntimas requerendo punição da
mulher diante de uma prova ou mesmo suspeita do fato. Já no tocante aos homens,
a natureza de suas relações extraconjugais ou mesmo “sua relação física com
outras mulheres pouco significava perante a lei, mas a manutenção da concubina
poderia significar a transgressão do seu papel de chefe de uma única família”
(ZECHLINSKI, 2007, p.414).
A criação literária de Nelson coloca em cena
valores tradicionais e modernos no que se refere às práticas afetivas
experimentadas por homens e mulheres num cenário de transgressões e desníveis.
O choque de tais representações de gênero eleva e traz a tona uma
reconfiguração de relações pessoais desgastadas gerando o redimensionamento das
mesmas por meio de situações situadas na esfera do banal e do cotidiano.
Pode-se dizer de um autor-ator e de sua visão
existencial. Visão que marcou sua vida e se fez presente em suas obras,
sustentadas pela presença marcante de sua própria subjetividade, o relevo de
sua estética ficcional, a inversão de sua própria vida presente e a recuperação
de reminiscências do passado que se articulam na cosmovisão de ser carioca e do
próprio homem brasileiro. O “texto literário do
jornalista, cronista e escritor Nelson Rodrigues é um precioso laboratório para
se tentar apreender a origem de alguns traços da subjetividade deste autor”
(MARIANI, 2009, p.95).
Se no século XIX experimentou-se um ambiente de
intensa remodelação da esfera familiar por meio de processos de modernização e
privatização num contexto de abandono de costumes coloniais superados pelo
programa civilizador urbano direcionado para o renovo cidade, não deixou de
lado as alterações por meio da esfera do íntimo e das propostas de reformulação
urbana dentro de uma perspectiva europeia. Aos poucos o abismo social se rompia
e as mulheres se inseriam na vida social muito mais condicionadas pelas novas
circunstâncias históricas do que próprias do seu tradicional lugar de ocupação
doméstica. Com a maciça presença da mão de obra nas fábricas de armamentos,
principalmente durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), recolocou suas
expectativas numa ótica do mundo do trabalho trazendo tensões no retorno ao lar
e um constante agravamento de fissuras em relação aos sexos. A valorização do
trabalho feminino foi decisiva no rompimento do espaço privado, pois foram “as
primeiras décadas deste século, época de transição de valores, assistem à
passagem da estrutura patriarcal para uma nova ordem econômica e social, onde
as ideologias de cunho individualista marcam presença” (TRIGO, 1989, p.88).
A família passou por um processo de pulverização
e adaptação das novas formas de sociabilidades. O modelo de família que
herdamos do século XIX esfacelou-se, resultado do individualismo moderno e da
recusa de uma estrutura extremamente rígida e normativa, onde era “a casa, protegida pelo muro espesso da vida privada que ninguém
poderia violar - mas também secreta, fechada, exclusiva, normativa, palco de
incessantes conflitos que tecem uma interminável intriga, fundamento da
literatura romanesca do século” (PERROT, 1993, p.78). Como resultado “nesta
perspectiva, o século XX veria se generalizar lentamente em toda a população
uma forma de organização da vida com dois domínios opostos e claramente
distintos: o público e o privado” (PROST, 2009, p.16). Então,
Desta forma, o confronto entre o mundo da casa e o mundo da rua aparece
constantemente nas histórias contadas por Nelson Rodrigues, em “A vida como ela
é...”. Ele apresenta o conflito das personagens que não conseguem perceber as
fronteiras entre a casa e a rua. Pelo fato de o universo familiar, escondido
nas paredes da casa, passar a ser mostrado, no espaço público – apesar de
bastante lida e com longa duração (dez anos) –, “A vida como ela é...” rendeu a
Nelson Rodrigues a fama popular de “tarado” (PARENTE, 2006, p.4).
Partindo do olhar cotidiano
dos leitores da coluna, as histórias refletiam as cenas do imaginário social, a
preocupação diante da temática do adultério e dos assuntos recorrentes a esfera
do privado, da casa, sendo livremente recriadas no espaço da rua. Nelson nos
legou uma “pintura”, um olhar “etnográfico” e social sobre a cidade, num
incessante diálogo com as normas que regiam a sexualidade de seus habitantes
onde a:
[...] modernização devastou as relações sociais,
os valores e a própria natureza da experiência urbana carioca. Essa devastação
é observada principalmente por meio do espaço publico, de historias que
aconteceram nas ruas, no Maracanã, em bares e restaurante, em festas, nas
redações dos jornais (FACINA, 2004, p.155).
As representações (CHARTIER, 1990) do feminino informadas
por Nelson são das mais variadas imagens, algumas delas “sendo mulheres dóceis,
amáveis e meigas, até mesmo as grosseiras, mal educadas, e nada amorosas”
(ZECHILINSKI, 2007, p. 417-418), algumas tomadas por desejos, gerando consigo
comportamentos desviantes, que quebravam a autoridade e o poder da dominação
masculina. O ambiente da cidade propiciava encontros furtivos e a família
nuclear, que se resumia ao marido, esposa e filhos, agora se restringe a
marido, esposa e amante. Suas impressões da cidade e dos sujeitos nela
envolvidos são tomadas pelo momento presente, mas também de histórias que
contavam quando Nelson era criança no espaço dos subúrbios cariocas, local de
sua constituição como indivíduo e de temas para as apropriações transpostas em suas
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* Artigo apresentado no II CONGRESO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA DO SUDESTE GOIANO, 2011 na cidade de Catalão, é publicado na Revista Emblemas do Departamento de História e Ciências Sociais da UFG/ Campus Catalão.
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