sábado, 11 de janeiro de 2014

NELSON RODRIGUES, LITERATURA E JORNALISMO NOS ANOS DOURADOS (1950-1959)


Leandro Antonio dos Santos¹
Resumo: Este texto tem por objetivos entender a narrativa de Nelson Rodrigues no período dos Anos Dourados tendo como suporte a obra “A vida como ela é...”, e a influência de sua imagem e concepção estética como jornalista em sua coluna diária. Nelson esteve inserido por meio de sua escrita nas tensões de sua época é revela pelos seus tipos sociais da sociedade carioca em transformação, a transgressão, num contexto de mudanças comportamentais, sua contribuição e altamente relevante para o entendimento da família brasileira, principalmente nas imagens de feminino e masculino. Intenta-se também destacar a sua maneira de conceber o jornal, de seu processo de escritura, nas fronteiras da realidade e a ficção, e de sua vivência social emanada das ruas, espaço de onde tanto fala. A Nova História Cultural evidencia abordagens situadas no campo do cotidiano, nas relações de gênero, na família e na imprensa como meio de compreensão da realidade vivida, estas serão centrais na discussão proposta. Tentaremos elucidar as representações sociais construídas por um escritor afinado com o seu tempo e as práticas sociais que esses comportamentos ocasionavam. Observaremos ainda as mudanças pelas quais a imprensa carioca passava e as críticas de Nelson Rodrigues à este processo modernizador.
 Palavras-Chave: Nelson Rodrigues; jornalismo; Anos Dourados.
 Na tentativa de elucidar as representações sociais produzidas por Nelson Rodrigues (1912-1980) no ambiente do jornal, está a sua capacidade de criação e reprodução da realidade por meio da coluna A vida como ela é..., esta serviu como caixa de ressonância da sociedade no período de transformações politicas-estruturais, culturais, tecnológicas, denominado de Anos Dourados.
Nelson recebeu a vocação jornalística do pai, Mário Rodrigues, que desde cedo, já adolescente tomou contato com o universo composto por notícias e fatos relacionados à coletividade urbana, aqui fluminense, local de onde partem as suas impressões do homem que forja sua experiência nas relações sociais construídas na cidade e no que ela tem de novo e liberalizante em relação aos costumes vigentes.
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¹ Graduado em História pela Universidade Federal de Goiás. Email: leandrosantoshis@gmail. com


Nelson Rodrigues revelou sua potencialidade de escrita por meio de jornais, no contato direto com a sensibilidade coletiva, emitindo representações sociais e deixando uma marca no imaginário popular, colocando na ordem do dia tipos sociais das ruas, inquietações vividas por pessoas comuns, dramas localizados, sentidos e compartilhados pela sociedade da década de 1950.
Segundo Xavier (2011) sua vida enquanto escritor de situações diárias do cotidiano esta ligada a sua maneira peculiar de associar sensação é percepção do mundo a sua volta, que lhe aparece por meio de conflitos, tensões e dilaceramentos em torno das relações humanas e familiares que se apresentam como catalizadoras das reações mais diversas em seus textos e na sociedade que se inteirava deles.
 O homem aparece em descompasso com o que lhe aparenta ser o certo e o correto. O modelo a ser seguido e vigiado não é mais hegemônico e natural. Mudam-se as regras, alteram-se os papéis, um novo mundo surge das páginas do jornal, da vida própria do escritor que a vivencia. Texto e contexto parecem-se entrelaçar-se num jogo dialético de posições contrárias, mas que se fazem sentido num processo civilizador que destrói a aparência das coisas, que renova a permanência do tradicionalismo do que é ser homem e mulher no mundo contemporâneo.
Quando tinha apenas quatorze anos de idade se meteu em calças compridas e foi trabalhar no jornal do pai, compondo um pequeno jornalzinho que saia junto com A Manhã, ali o jovem escritor se metera no ambiente da redação em um “tabloide de quatro páginas [...] era uma espécie de “A Manhã” de calças curtas, embora Nelson já tivesse deixado de usá-las. Ele queria ser como seu pai, um espadachim verbal” (CASTRO, 1992, p.60).
Sua vida daí em diante passa a se confundir com os folhetins. Nesse momento de contato inicial de uma viagem duradoura de toda uma vida ele se mostrava em seus textos com “petulância de adolescente” com ataques pessoais, onde foi que:
Logo no primeiro número do tabloide desencadeou um ataque sem tamanho com o padre Félix Barreto, diretor do Ginásio do Recife, acusando-o de ter torturado seu primo Augusto, aluno do ginásio, a mando do governador Sérgio Loreto. “É inútil dizer que o padre Félix Barreto é um farrapo humano desprezível”, bramava Nelson no artigo, “um reles bandido, um pobre louco cujo cérebro a sífilis comeu e cuja lama é lavada durante duzentas vezes na latrina”. Em outro trecho, taxava o pio padre Félix, futuro nome do colégio no Recife, de “celebre violador de pretas” (CASTRO, 1992, p. 60).
    
O jornal que Nelson começará a escrever a metade deles foi destinado para o Recife. Aos poucos na segunda edição do jornal deixava de lado as questões pernambucanas
mas pedia o fechamento da Academia Brasileira de Letras pela polícia, classificava Epitácio Pessoa de “uma pústula social” e massacrava por atacado a Escola Nacional de Belas Artes, acusando-a de ser um antro de “marmanjos imbecis” (CASTRO, 1992, p. 61).

O destino do jornal não reservará a Mário Rodrigues o sucesso desejado, logo perdeu o controle para seu sócio Antônio Faustino Porto, por motivos de dívidas que aos poucos foi ganhando espaço nos investimentos do jornal, foi assim que Porto assumiu o controle da empresa, mas “para Mário Rodrigues, tornara-se muito fácil abrir outro à hora que quisesse. Afinal, era ou não amigo do vice-presidente Melo Viana? [...] Mário lançou seu novo jornal e o de mais escandaloso sucesso: “Crítica”” (CASTRO, 1992, p. 68). Neste novo espaço Nelson persistiria em torno da pagina de policia, se tornando um grande sucesso de vendas.
Fato marcante em sua vida, e que marca de maneira a deixar marcas profundas em sua escrita foi a morte de seu irmão Roberto Rodrigues em 1929, que desencadeou a morte de Mário, e durante a Revolução de 30 a redação a “Crítica” teve sua redação empastelada, deixando assim de existir. As:
Redações e oficinas foram invadidas e empasteladas. Máquinas de escrever eram atiradas na rua, prensas eram destruídas a golpes de canos de ferro, gavetas inteiras de tipos eram jogadas para o alto como peneiras de café. Bobinas de papel atapetavam as ruas do Carmo, Ouvidor, Sete de Setembro e Assembléia. Tudo ia sendo chutado, rasgado, demolido e, em alguns casos, incendiado. Trazidos não se sabe de onde, galões de gasolina apareceram magicamente e edições inteiras viraram fogueira. Foram invadidos “Crítica”, “A Noite”, o “Jornal do Brasil”, “O País, “A Notícia”, “Vanguarda” e a “Gazeta de Notícias” (CASTRO, 1992, p. 105-106).


 A família de Nelson depois desse acontecimento passou por uma grave crise financeira, por muito tempo procuraram juntamente com seus irmãos por emprego, principalmente nos jornais “mas por medo de desagradar os novos donos do poder” (CASTRO, 1992, p. 109) encontravam dificuldades. Em 1931, Nelson começa a trabalhar em “O Globo”, tendo sua carteira assinada somente em 1932. Em 1934 já estava com os primeiros sintomas da tuberculose, “começou com tosse seca e uma febre, baixa mais persistente, todas as tardinhas. Nelson estava muito magro” (CASTRO, 1992, p. 125).
Já na maturidade Nelson abandona o Globo passando a atuar nos Diário dos Associados, especificadamente em “O Jornal”, produzindo o seu primeiro folhetim “Meu Destino é Pecar” usava um pseudônimo “Susana Flag” que aumentou significadamente a circulação do jornal, foi assim que “O Jornal estava dobrando sucessivamente, de três para seis mil, daí para doze mil e, no apogeu de “Meu destino é pecar”, menos de quatro meses depois, chegara a quase trinta mil exemplares” (CASTRO, 1992, p. 186).
Depois do estrondoso sucesso, começou outro folhetim “Escravas do Amor” que obteve a mesma repercussão do anterior. Já então escrevendo peças Nelson se aventura pelo teatro, “estava com a cabeça definitivamente no teatro, mas precisava continuar escrevendo folhetins para sustentar-se” (CASTRO, 1992, p. 219).
A sua grande projeção se deu em 1951, “Nelson decolou do fundo do poço para o que seria um salto mortal em sua vida: “Última Hora” – e “A vida como ela é...”” (CASTRO, 1992, p. 228).
O convite para compor uma seção do jornal veio de Samuel Wainer (1910-1980) que lhe sugeriu escrever sobre fatos relacionados à realidade “a coluna poderia se chamar “Atire a primeira pedra”. Nelson aceitou mais que depressa, mas sugeriu outro título, “A vida como ela é...” – com reticências” (CASTRO, 1992, p. 236). De inicio se adaptava aos temas impostos pela redação do jornal, mas logo depois “começou a inventar ele próprio às histórias. Samuel Wainer levou uma semana para descobrir e, quando descobriu, era tarde: “A vida como ela é...” já incendiara a cidade” (CASTRO, 1992, p.236).
Nunca ate então um jornal carioca apresentou de forma tão real os habitantes da cidade, os espaços “tendo como cenários a Zona Norte, onde eles viviam; o Centro, onde eles trabalhavam; e, esporadicamente, a Zona Sul, onde só iam para prevaricar” (CASTRO, 1992, p. 237). O Rio de Janeiro de Nelson Rodrigues da década de 1950,
[...] não haviam motéis, nem pílula e nem a atual liberdade absoluta entre os jovens. A Zona Norte, quase sem comunicação com a paradisíaca e permissiva Zona Sul, ainda preservava valores contemporâneos da “Espanhola”. As famílias eram rigorosas e, o que é pior, muito mais famílias moravam juntas do que hoje. Maridos, cunhadas, sogras, tias e primas cruzavam-se dia e noite nos corredores dos casarões, sob uma capa de máximo respeito. Nessa convivência compulsória e sufocante, o desejo era apenas uma faísca inevitável (CASTRO, 1992, p. 237).

A forma como a escrita de Nelson se adaptou a realidade é de fato um dado surpreendente, pela maneira de incitar a leitura das pessoas e curiosidade e expectativa pela próxima história a ser produzida. O universo do texto estava carregado da mais densa sensibilidade coletiva, do cotidiano dos leitores, de suas vivências causa do sucesso que a coluna resultou na cidade. A sexualidade latente que tomavam seus personagens ocasionou as mais diversas recepções e imagens, como a de devasso e tarado, o que se pretendia era “esculpir o personagem de si próprio” (CASTRO, 1992, p. 242).
Cabe destacar a importância do jornal Última Hora para o processo de modernização da imprensa brasileira a partir da década de 1950, criado a partir da amizade firmada entre Samuel Wainer e Getúlio Vargas. Depois de sua posse como presidente da república percebe-se a ausência de um jornal que cobrisse as noticias de seu governo. Em meio a essa inexistência de propaganda, surge a Última Hora, um jornal dedicado a apresentar notícias endereçadas ao governo, como canal direto com a população.
   A trajetória jornalística de Samuel Wainer e sua história na vida pública dentro da imprensa carioca é um dos mais importantes e decisivos acontecimentos do jornalismo do país, principalmente durante a metade do século XX, além de sua participação em assuntos de natureza internacional.
Seu consequente sucesso profissional está, em grande parte, nas alianças estabelecidas entre os governos e as elites políticas do país. O envolvimento de Wainer com os assuntos relativos à esfera política rendeu grande notoriedade a sua pessoa e “áurea” de jornalista sempre presente nas esferas de poder. Seu reconhecimento deu-se pelo tom sempre polêmico, adjetivo com que passou a ser enfatizado e lembrado pela posteridade. Podemos dizer que “sua importância aparece auto justificada pelo teor de suas declarações sobre os bastidores da política brasileira, nos períodos autoritário quanto democrático” (ROUCHOU, 2006, p. 346).
 Sua biografia legou as mais diversificadas facetas; estrangeiro, judeu, nacionalista, até mesmo chamado de comunista, dono de jornal, jornalista e, sempre intimamente ligado ao poder público durante três décadas. Isto o imortalizou como sendo o primeiro jornalista brasileiro a compor um jornal de natureza inovadora, ao mesmo tempo moderna e acima de tudo escrito e dirigido por um próprio jornalista.
Wainer, em seu percurso no Brasil, lutou, de maneira pertinente, em relação aos problemas advindos de sua identidade. Sua origem, de família judia, estava na Bessarábia, na religião judaica, mas o que fica expresso sempre em suas memórias é o fato de nunca ter deixado de posicionar-se diante de sua verdadeira identidade, sempre “mal construída”, em relação a seus três filhos. Nesse impasse, Lacerda iniciou, em 1953, uma feroz campanha tentando, de todas as formas, provar a nacionalidade de Wainer, pois, de acordo com as leis brasileiras, um estrangeiro não poderia praticar a atividade jornalística no Brasil.
Logo este traço étnico se fez presente em toda a sua vida, como fica expresso desde o início de sua carreira ao lado de Vargas:
Da entrevista com Vargas com alusão a sua origem (o profeta Samuel) ás reuniões de empresários ou coberturas, à condição judaica se fez presente. Uma passagem que me chamou a atenção foi a determinação de cobrir os julgamentos de Nuremberg. É possível, em sua trajetória, perceber variações relevantes em suas atitudes quanto a essa celebrada “condição judaica”. Ela nem sempre foi celebrada, nem tão assumida e aberta (ROUCHOU, 2006, p.354).

Imigrante, nascido de pais pobres, essencialmente judeus, que vieram a morar no bairro de Bom Retiro, em São Paulo. Seu começo na carreira jornalística deu-se num jornal dirigido à comunidade judaica, conhecendo, aos poucos, o universo da imprensa. Logo criou a revista Diretrizes, em 1938, de caráter marcadamente comunista, mais basicamente antifacista. Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a revista se encerrava e Samuel Wainer viajou aos Estados Unidos e depois Europa como correspondente de jornais cariocas. Em 1945, conseguiu cobrir o Tribunal de Nuremberg, sendo, assim, o único jornalista brasileiro a cobrir tal relevante acontecimento. De volta ao Brasil, em 1947, como repórter famoso e de muito prestígio, ingressou no Diário dos Associados, de Assis Chateubriand. 
Mas o momento chave em sua profissão de jornalista foi em 1947, quando Wainer encontrou sua grande oportunidade. Esta veio com o intuito de produzir uma reportagem acerca da questão do trigo, quando decidiu entrevistar Getúlio Vargas. O então ex-presidente revelou, em primeira mão, que voltaria para a vida política. Assim “começava a união entre os dois que resultou na eleição de Vargas e na criação do jornal Última Hora, dado pelo recém-eleito presidente Vargas a Samuel Wainer em 1952” (ROUCHOU, 2006, p. 352).
Logo, em 31 de janeiro de 1951, Getúlio Vargas tomou posse como presidente da República do Brasil, reuniu seu ministério e advogou pelo fato de não existir um jornal para cobrir os acontecimentos de seu governo e que afastasse a “conspiração do silêncio que a imprensa lhe impusera” (BARBOSA, 2007, p. 170). No decorrer dos acontecimentos Samuel Wainer foi convidado para um jantar com a família de Vargas, surgindo a ideia de criar o novo jornal.
A partir dessa grande amizade passou a exercer grande influência perante Vargas, “quase um conselheiro”, um “emissário”. Sua posição no nascente jornal o colocou diante de um papel privilegiado, o qual, até então, nenhum outro jornalista alcançara em sua época. Sua passagem de repórter do Diário dos Associados para dono do jornal Última Hora foi tomada de grande surpresa, como comentou em entrevista:
Quando retornei da Europa o Assis Chateaubriand me convidou para os "Associados", em julho de 1947. Aceitei. Primeiro porque eu queria conhecer por dentro uma grande empresa, o ventre de uma grande empresa. Porque ele me pagou um salário excelente pra época. Eram 20 contos, equivalia hoje a 200 mil cruzeiros, quebrou todos os padrões. Ele sabia, ele tinha um instinto, ele já tinha lido coisas minhas. Aí entrei nos "Diários Associados" onde eu vi por dentro o chamado grande jornalismo. Fui editor nos "Diários Associados", fui secretário de redação, redator, colunista, mas principalmente repórter. Foi quando descobri Getúlio [...] Dessa amizade com Getúlio nasceu a "Última Hora" (WAINER, 1979, p. 5-6).

Samuel Wainer aproveitou do momento político para garantir o sucesso das notícias publicadas no jornal. Para ele nada mais era interessante do que a própria imagem de Getúlio Vargas. Criou duas empresas: uma gráfica, a Érica, e a outra editorial, a Editora Última Hora. Para ajudar na viabilização da gráfica contou com os empréstimos do banqueiro Walter Moreira Salles e com o presidente do Banco do Brasil, Ricardo Jafet, além de EuvaldoLodi, empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria, dentre outros como a Caixa Econômica Federal e o Banco Hipotecário do Crédito Real, através de Juscelino Kubischeck. Por isso,
Portanto a "Última Hora" não foi criada acidentalmente, ela ia sendo criada à medida que a gente criava novos quadros e novas ideias. Eu senti que a popularidade de Getúlio me dava uma comunicação com todas as camadas sociais e a linha nacionalista me dava comunicação com a camada dirigente do novo empresariado brasileiro. Então, a "Última Hora" foi, realmente, um produto de uma imensa vivência jornalística e política (WAINER, 1979, p. 6).

Esse veículo de comunicação de marca partidária levava consigo de roldão uma série de inovações nas maneiras de conceber o jornal a partir da década de 1950. Novos ventos começaram a soprar na modernização de nossa estrutura jornalística, pela influência do modelo norte-americano que traziam consigo elementos como a objetividade a neutralidade frente aos fatos do cotidiano. As reformas foram introduzidas por Samuel Wainer, não é a toa que seu jornal se tornou um grande “divisor de águas” na tentativa de se incorporar uma maior profissionalização e aperfeiçoamento das técnicas implantadas na produção do jornal. O jornalismo até então, era o lugar predileto dos literatos que usavam desse instrumento para divulgar as suas produções, mas foi assim que:
Na década de 1950, isto começou a mudar, principalmente no Rio de Janeiro, onde o jornalismo empresarial foi pouco a pouco substituindo o político-literário. A imprensa foi abandonando a tradição de polêmica, de crítica e de doutrina, substituindo-a por um jornalismo que privilegiava a informação (transmitida "objetiva" e "imparcialmente" na forma de notícia) e que a separava (editorial e graficamente) do comentário pessoal e da opinião (RIBEIRO, 2003, p. 148).

A história do nosso jornalismo se configurava como uma mescla com a literatura, não havia pretensões de compor os fatos tais como se passaram de um jornalismo tradicional, literário, incipiente, passávamos assim para um jornalismo industrial, produzido para as grandes massas. Devido a uma própria demanda da modernização das cidades o público leitor queria uma linguagem mais adequada e isenta de qualquer intenção por parte daquele que escreviam:
[...] uma demanda por rapidez, tanto na instância da produção quanto na do seu consumo. O ritmo cada vez mais acelerado da vida moderna exigia adaptações para tornar os jornais veículos dinâmicos para as notícias e para a propaganda (RIBEIRO, 2003, p. 150).

Contribuíram também para a modernização e profissionalização da informação o fato de alguns jornais realizarem altos pagamentos salariais, acima da média (como foi o caso do Última Hora), e também pela criação do ensino superior de jornalismo, criado pelo decreto n° 5.480, de 13 de maio de 1943 por Getúlio Vargas. A implantação do curso de jornalismo no Brasil se deu inicialmente na Universidade do Brasil (1948) e posteriormente na Pontifícia Universidade Católica (1951). O quadro geral dessa revolução no campo da comunicação ocorreu de forma ampla e intensa, o mercado se estruturou em novas bases promovendo a disseminação pelo país.
A maioria dessas mudanças - redacionais, editoriais, gráficas, empresariais e profissionais - não foi introduzida no jornalismo carioca de maneira gradual e espontânea. Apesar de já virem sendo gestadas há muito tempo, só conseguiram se impor através de um processo consciente de reformulação, levado a cabo de forma pioneira por algumas empresas jornalísticas e por alguns profissionais (RIBEIRO, 2003, p. 153)

Os jornais pioneiros nesse vulto de novos empreendimentos foram o Diário Carioca, a Tribuna da Imprensa, a Última Hora e o Jornal do Brasil. Nota-se que esses jornais estão alinhados com o campo político, influenciando as notícias e o modo de se fazer jornalismo na época.
Defendo, no entanto, a hipótese de que o aspecto político jamais desapareceu totalmente, exercendo um papel fundamental - estrutural – na dinâmica das empresas jornalísticas. Apesar de se terem afirmado imperativos de gestão e de administração, estes ainda não eram suficientes para garantir a autonomia das empresas. Por isso, os jornais jamais deixaram de cumprir um papel nitidamente político. O apoio a determinados grupos que estavam no poder ou na oposição (dependendo da conjuntura) era essencial para garantir a sobrevivência de algumas empresas, fosse através de créditos, empréstimos, incentivos ou mesmo publicidade (RIBEIRO, 2003, p. 156).

A década de 1950 permitiu esse desenvolvimento no tocante à industrialização do país, principalmente, do setor industrial e concomitantemente do gasto com publicidade faz-se acompanhar esse caminho. 
Nelson Rodrigues se encontrava no olho do furacão, e nele encontramos o discurso da contradição da linguagem literária, com o texto jornalístico, na essência da comunicação, esses dois campos se entrelaçam com empréstimos recíprocos, muito pela dimensão da linguagem que permeia essa relação. Foi nesse ritmo que Nelson conheceu o Última Hora e
Em sua casa nova, iria promover uma revolução na imprensa brasileira, adotando a técnica americana de uniformizar os textos e implantando a novidade do “copy-desk” – redator encarregado de escoimar as matérias de verbos como, por exemplo, escoimar. Ninguém mais podia ser literato na redação, a não ser em textos assinados e olhe lá [...] Nelson passional como uma viúva italiana, achava aquilo como um empobrecimento da noticia e passou a considerar os “copy-desks” os “idiotas da objetividade” (CASTRO, 1992, p. 231).

Nelson era, portanto um idealizador de outra concepção de jornal, mais identificado com as liberdades de escrita, com o emprego da subjetividade, herança do jornalismo praticado pela sua família.
Sou da imprensa anterior ao copy desk. Tinha treze anos quando me iniciei no jornal, como repórter de policia. Na redação não havia nada de aridez atual e pelo contrário: - era uma cova de delícias [...] De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na redação, seja repórter do setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade estilística. E o copy desk não respeitava ninguém (RODRIGUES, 1995).

Em 1955, a família de Nelson obteve ganho favorável pelo empastelamento de “Crítica” depois de vinte quatro anos depois da destruição do jornal. Depois de passar pela televisão como comentarista esportivo na TV Rio com a famosa “Resenha Facit”, e recebido pelo Correio da Manhã para começar a escrever suas “Memórias”, o que impressionava era seu vasto currículo e experiência na área.
Fizera parte dos jornais e revistas no berço, na plenitude e na morte. Atravessara todas as revoluções gráficas, estilísticas e empresariais da imprensa naquele período e, nem que fosse como coadjuvante, acompanhara de perto todas as transformações politicas do Brasil. Numa delas, a de 1930, tinha sido até vitima [...] E, de fato, só o currículo profissional de Nelson já impressionara. Fizera reportagem da polícia, futebol, crítica, crônica, conto, folhetim, até mesmo consultório sentimental. Escrevera com seu nome, com pseudônimos e com o nome dos outros. A lista dos jornais e revistas importantes pelos quais passara dava água na boca: “A Manhã”, “Crítica”, “O Globo” (três vezes), “O Cruzeiro”, “O Jornal”, “Diário da Noite” (duas vezes), Última Hora”, e “Manchete”, fora os jornais e revistas menores – e mais o “Jornal dos Sports” do qual era uma espécie de móveis e utensílios de que ninguém se dava conta” (CASTRO, 1992, p. 354).

 Nelson é um homem que foi forjado dentro do jornal, sua vida se confunde com uma parte da história da imprensa brasileira, desde cedo sua experiência como jornalista do cotidiano, lhe deu a habilidade em compor com tamanha realidade as relações sociais entre homens e mulheres na década de 1950 em sua coluna A vida como ela é..., em um período de mudanças comportamentais e tecnológicas, o escritor reproduz as tensões de sua época por meio de suas representações sociais.
Grande parte de sua obra foi construída nas páginas do jornal, no diálogo com os leitores, no tratamento da linguagem das ruas, de seus tipos sociais e ambientes de convívio. Nada se compara a seu nível de realidade, a sua forma de retratar o homem e seus dilemas frente à modernidade. Num tom sempre crítico e inovador Nelson rompe com o moralismo estagnado e com a hipocrisia social e apresenta o homem com intensa verdade, caracterizado segundo sua própria natureza.
O cotidiano retratado em sua coluna jornalística instaura o começo incipiente de uma onda de liberdade, de inversão dos papéis sociais, no que se refere o que é ser homem, é o que é ser mulher na metade do século XX. Nelson quebra em sua coluna o quadro social imposto pela época, onde a mulher cada vez mais ampliava a sua participação no mercado de trabalho e nos índices de escolaridade.
As mulheres estão representadas como dominadoras, sentem desejos por outros homens que não são seus maridos, fragilizando a honra do masculino e consequentemente a sua capacidade de impor seu domínio no campo da vida privada. O tempo da coluna é outro que a sociedade da época não quer reconhecer, por isso do impacto de suas representações para o período, que ainda detinha fortes discursos em torno da sexualidade e do casamento.
Em um momento de intensas mudanças em variadas esferas da vida, a área da imprensa não ficou de fora, o jornalismo tradicional-literário de Nelson estava sendo severamente ameaçado, o estilo de escrita rebuscada, com intensa marca pessoal do escritor, lentamente foi sendo esquecida pela prática direta e sem rodeios da nova notícia. E a narrativa rodriguiana se assentava sobre essa perspectiva entre realidade e ficção, jornalismo e literatura. Hoje:
Percebemos que o jornalismo feito por Nelson Rodrigues é totalmente oposto ao que hoje chamamos de jornalismo convencional. Longe da objetividade e do texto mecânico e engessado, o texto rodriguiano é despojado e subjetivo. A experiência como repórter policial e a elaboração de matérias designadas à seção de polícia, todos influenciaram as formas literárias do autor. Os mesmos temas – amor, adultério e morte – são acrescidos de elementos originários desta experiência de jornalista e, articulados, constituem partes fundamentais do universo rodriguiano (SALES, 2011, p. 329).

 
Seu texto abarcava duas características fundamentais, a realidade e a ficção, duas faces da sua estética textual, a capacidade de retratar acontecimentos do cotidiano, filho de pai jornalista, legou as habilidades que o tornaram um grande jornalista do seu tempo onde “a ficção era uma tradição da família, e ele a levou a sério” (CLARK, 2002, p. 2). Por onde passou alavancou as vendas dos jornais implantaram o desejo de leitura e mortalizou personagens inesquecíveis no ambiente das redações dos jornais.
A conjuntura da década de 1950 reformou de forma atuante o que sabemos e entendemos de jornalismo nos dias de hoje, eliminou situações convencionais e pessoais de quem os escreviam e permitiu um maior alcance dos impressos na sociedade garantindo o acesso a uma informação rápida e objetiva e de massa.
A separação de jornalismo e literatura se efetivou na década de 50, essa associação não mais seria praticada e relegada ao segundo plano. Nelson combateu veementemente essa nova postura devido a sua atuação herdada de sua família, e que perdia cada vez mais espaço pelos novos jornalistas da época.
Nelson foi um intelectual engajado nas questões do seu tempo, seu discurso crítico as reformas na escrita e renovações no campo do texto jornalístico, lhe rendeu a sua imagem para a posteridade na compreensão da historicidade das relações tecidas entre literatura e jornalismo na década de 1950.

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Marialva. “Cinqüenta Anos em Cinco”: consolidando o mito da modernização. In: _____. História Cultural da Imprensa: Brasil, 1990 – 2000. Rio de Janeiro: Maud X, 2007.
CASTRO, Ruy. O Anjo Pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Cia das Letras, 1992.
CLARK, Linda. Nelson Rodrigues: jornalismo e literatura na dose certa. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 17, p. 3-11, jan. /fev. 2002. Disponível em: <www.gelbc.com.br/pdf_revista/1701.PDF.> Acesso em: 15 abr. 2012.
RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Jornalismo, literatura e política: a modernização da imprensa carioca nos anos 1950. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº. 31, 2003, p. 147·160.
RODRIGUES, Nelson. A Vida Como Ela é: o homem fiel e outros. Seleção Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
­­­­­­­­­______.  A Cabra Vadia. Seleção de Ruy Castro. São Paulo. Companhia das Letras, 1995.
ROUCHOU, Jöelle. Samuel Wainer: memórias entre jornalismo e política. In:_____. NEVES, Maria Bastos P.; MOREL, Marco; FERREIRA, Tânia Maria Bessone da C. (orgs). História e Imprensa: representações culturais e práticas de poder. Rio de Janeiro: DP & A: FAPER, 2006.  p.346-362.
SALES, Esdra Marchezan. Narrativas convergentes: ficção e realidade na prosa de Nelson Rodrigues. Estudos em Jornalismo e Mídia, Florianópolis, v. 8, n. 2, jul. dez. 2011. Disponível em: <http:/www.periodicos.ufsc.br/index.php/jornalismo/article/view/1984-6924.2011v8n2p323>. Acesso em: 15 ab. 2012.
WAINER, Samuel. Por que Café Filho traiu Getúlio. Jornalistas contam a História - 10. Depoimento de Samuel Wainer ao repórter Wianey Pinheiro. Folha de São Paulo, São Paulo, domingo, 14 jan. 1979.
XAVIER, Rodrigues Alexandre de Carvalho. O Rio Como ele é: Nelson Rodrigues: sensação e percepção. Rio de Janeiro. Disponível em: <http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/Busca_etds.php?strSecao=resultado&nrSeq=6710@1>. Acesso em: 10 de nov. 2011.
ZECHILINSKI, Beatriz. Polidori. “A vida como ela é...”; imagens do casamento e do amor em Nelson Rodrigues. Cadernos Pagu, v. 29, p. 399-428, jul. dez. 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-83332007000200016&script=sci_arttext>. Acesso em: 11 de nov. 2011.




segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

AS REPRESENTAÇÕES DO FEMININO EM NELSON RODRIGUES: CONFLITOS ENTRE A CASA E A RUA






Resumo: Neste texto, a intenção é adentrar a década de 1950, onde a mulher, cada vez mais, intensificava o processo de emancipação de sua antiga condição histórica herdada. Sua participação nos espaços públicos da cidade estimulou a redefinição dos papéis sociais estabelecidos e contribuíram para a superação do ideal de dominação masculina que imperava sobre ela. O objetivo consiste em compreender as representações elaboradoras por Nelson Rodrigues, expostas no jornal a Última Hora, em sua coluna diária “A vida como ela é...” percebendo nos contos que aí figuravam a presença do imaginário popular em torno das mulheres e as imagens por ele elaboradas do agitado cenário urbano em transformação da sociedade carioca de meados do século XX.

Palavras-chave: privado, público, gênero.

Abstract: This paper consists in entering the 1950 decade, when women were increasingly intensifying the emancipation process from their inherited former historical condition. Their participation in the public spaces of the city stimulated the already established social roles redefinition, and contributed to overcome the ideal of masculine domination that reigned over them. The goal is to understand Rodrigues’ representations exposed in his daily column “A vida como ela é…” in Última Hora newspaper, noticing in each of those short stories the presence of the popular imaginary around women, the images of the fussy urban scenario in transformation from the society in Rio de Janeiro around the 20th century created by Nelson Rodrigues.

Key-words: private, public, genre.

Nelson Rodrigues (1912-1980), dramaturgo consagrado, um dos poucos escritores de nossa língua portuguesa que retratou de forma verossímil o ambiente dos espaços públicos e dos agentes sociais neles envolvidos da cidade do Rio de Janeiro no decorrer de meados do século XX.
Aqui nos ocupamos da década de 1950, período rico de inspiração para a composição das mais variadas obras do autor e de percepção da sociedade a sua volta. Sua popularidade e suas histórias estiveram intimamente associadas aos jornais impressos e à consequente circulação e recepção dos mesmos na presença da coletividade urbana carioca.
Grande parte de sua literatura esta associada ao folhetim diário no qual atuou boa parte de sua vida. Aqui destacamos os anos de 1951 e 1961, no jornal a Última Hora, de Samuel Wainer. A princípio sua coluna destinava a compor a seção do noticiário policial, no qual já havia trabalhado durante oito anos de sua vida, lançada em outubro de 1951, com o título “Atirem a primeira pedra”, sendo logo, em 16 de novembro de 1951, alterada para “A vida como ela é...”. Para Wainer a coluna diária passaria a compor os fatos inerentes ao resgate da realidade. Nelson aceitou de bom gosto o convite, logo sugerindo e alterando o nome de sua coluna, então, “muito mais sugestivo, ele achava, e dava um toque de fatalidade, de ninguém-foge-ao-seu-destino. Samuel Wainer concordou e Nelson foi escrever a primeira coluna” (CASTRO, 1992, p.236). A influência do jornalismo norte-americano estava sendo bastante sentida na época, elementos como objetividade e neutralidade começavam a ser idealizados para a renovação da imprensa brasileira e carioca. 
Suas atraentes histórias permearam o universo dos habitantes da cidade, estimulando o hábito da leitura, foi com essa coluna que Nelson Rodrigues tornou-se uma personalidade de caráter popular, além de elevar a sua fama de “tarado” em meio à opinião pública.

 “A vida como ela é...” com um fascinante elenco de jovens desempregados, comerciários e “barnabés”, tendo como cenários a Zona Norte, onde eles viviam; o Centro, onde trabalhavam; e, esporadicamente, a Zona Sul, aonde só iam para prevaricar (CASTRO, 1992, p.237).

Utilizando dos contos da obra como suporte documental na análise dos comportamentos desviantes e de valores morais inerentes e esperados pelas mulheres, se nota cada vez mais a ameaça e a dissolução do poder de dominação masculina, frentes às oportunidades que a industrialização da sociedade suscitava, e das novas formas de sociabilidades encontradas.
O texto literário tratado de acordo com sua historicidade e especificidade se torna uma fonte rica para a decodificação de variados discursos que por vezes outros documentos oficiais não sejam capazes de conter. A interlocução forjada entre literatura e história permite “compreender a obra literária como resultado da sublimação de dados sociais que, de um lado, fazem dela expressão de uma sociedade e de um momento histórico” (CANDIDO, 1985).
O tema recorrente nas histórias produzidas por Nelson girava em torno da infidelidade feminina, que nessa época pertencia à esfera da vergonha, considerada um verdadeiro tabu dentro das relações amorosas, no que concerne a honestidade sexual da imagem feminina. Seu destino era a vida de dona de casa, responsável pelo cuidado dos filhos, do marido e da unidade doméstica. Por isso a intensa receptividade da narrativa de Nelson perante os leitores da cidade, no ato de desvelar assuntos recorrentes a esfera do íntimo e da honra familiar. Como afirma Beatriz Polidori Zechlinski,

Dessa forma a relação das histórias de “A vida como ela é...” com a realidade não se baseava no fato da traição ou não das mulheres, mas na possibilidade dessas traições, que povoava a imaginação das pessoas, suscitando a leitura da coluna do Jornal Última Hora (ZECHLINSKI, 2007, p.410).

O contexto social estava se alterando e reinventando as imagens ligadas ao feminino e ao masculino, estabelecidas nas práticas sociais. Estas não ficaram imunes ou mesmo estáveis num ambiente de intensa industrialização, modernização e individualização, causando uma efetiva redefinição de papéis, e trazendo consigo um quadro de tensões sociais, gestadas em torno das relações de gênero e normas de conduta, perpetuadas no seio do universo familiar.
A intensificação da participação das mulheres no espaço físico urbano da cidade, com maior penetração nos locais de trabalho e acesso a educação, lugares até então pouco explorados por elas, trouxeram consigo novas imagens da feminilidade na contramão dos valores existentes que a circundavam diante dos comportamentos esperados por elas, dentro do universo doméstico e sobre a tutela da autoridade masculina.  
Por isso o campo das representações rodriguianas é um roteiro pertinente e possível na busca por perceber os conflitos das relações de gênero e amorosas no período dos anos da década de cinquenta e desvendar o imaginário social da sociedade carioca por meio das representações sobre a classe média urbana. As mais variadas temáticas tratadas diariamente por meio da coluna iam de encontro com a realidade social apresentada pelo cotidiano dos leitores.  
A imagem feminina se faz elemento central dentro das tensões provocadas e tratadas por Nelson, diante das novas oportunidades advindas da modernização do espaço físico em transformação, estabelecendo contradições evidentes no que concernem as relações firmadas e naturalizadas entre o público e privado. A superação dos estigmas e obstáculos enraizados na instituição familiar diante da presença da mulher na esfera da vida pública urbana, até então destinada aos trabalhos domésticos, aos cuidados com os filhos e a integridade moral da família, foram expostos por meio de sua narrativa que refletia o realismo das situações retratadas (BARTHES, 1984), que não se cansa de explicitar aspectos vivenciados pelo autor em diversos lugares da cidade, no cenário das ruas, dos bares, dos escritórios e das repartições públicas, espaços de lazer...
A dicotomia entre o público e o privado, o lar e a rua, se tornam constantes nos confrontos que perpassavam as relações de gênero em meados do século XX. A dissolução dos velhos princípios da família patriarcal brasileira no que se refere ao controle social sobre o corpo feminino e a autoridade masculina é projetada com relevância dentro da imersão psicológica encontrada nas histórias contadas por Nelson e no constructo de seus mais variados personagens, sempre na “relação tão visceral com a cidade, sua história, cacoetes e paixões” (DIAS, 2005, p.101).
A realidade social carioca das ruas foi o laboratório existencial da experiência de vida de Nelson. Sua infância, impressões, acontecimentos que permearam a sua família, na região da Aldeia Campista, são relatadas com intenso destaque na estética de suas narrativas, sua coluna era lida com entusiasmo pelo fato de expor os fatos corriqueiros da sociabilidade urbana, priorizando questões que se sucediam em torno das relações amorosas na região da Zona Norte do Rio de Janeiro, onde o intercâmbio com o centro, local de trabalho, e a Zona sul, espaço de divertimento e encontros furtivos, estão em evidência nos contos de A vida como ela é...
O interesse maior de investigação deste estudo se encontra no campo das normas de conduta e da honra sexual, para isso, encontramos pesquisas relevantes como a de Sueann Caulfield, pesquisadora norte americana que veio ao Brasil interessada em aprofundar mais sobre crimes sexuais e valores que giravam em torno da honra sexual pelos mais amplos setores organizados da sociedade, e num plano maior, como esse conceito estava intimamente ligado a modernização da nação. Ela, por sua vez, concentra a sua obra entre a Primeira Guerra Mundial e o inicio do Estado Novo, onde “para muitas autoridades religiosas da época, assim como para as elites políticas e profissionais, a relação era simples: a honra sexual era à base da família, e esta, a base da nação” (CAULFIELD, 2000, p.26).
A força de moralização da instituição familiar preocupava e afetava todo o meio social, seu suposto desajuste se configuraria em situação de caos, e a consequente dissolução da família. Nesse sentido, o que se pode verificar na formação desse quadro era,

[...] o que essas elites não percebiam, ou pelo menos não admitiam, era que a honra sexual representava um conjunto de normas que, estabelecidas aparentemente com base na natureza, sustentavam a manutenção da lógica das relações desiguais do poder nas esferas privada e pública (CAULFIELD, 2000, p. 26).

O conceito de honra sexual era tomado de diversos significados pela opinião pública, ganhando destaque durante o século XX, principalmente durante o governo de Getúlio Vargas, e seus esforços em zelar pela moral pública e pelos valores inerentes da família.
A família brasileira, que durante muito tempo vem sendo pensada como um ramo extenso, sob a estrutura do modelo patriarcal, delimitada pelo poder do masculino sobre os demais membros, como afirma Gilberto Freyre (1987) partir dos anos 50 passou a ser rigidamente contestada por inúmeros historiadores que

[...] passaram a expandir suas pesquisas para além das pesquisas de elite, encontrando uma grande variedade de organizações familiares, incluindo, em muitas regiões, inúmeras famílias chefiadas por mulheres. Esses pesquisadores demonstraram que essa organização era muito mais diversificada e a sociedade muito mais dinâmica do que estabelecia o modelo de Freyre. Mesmo membros da elite levavam vidas que desviavam dos requisitos morais desse modelo (CAULFIELD, 2000, p.30).

Para o antropólogo Roberto Da Matta “a casa é o espaço privado da ordem, da hierarquia social natural baseada em sexo e idade; a rua, o espaço desprotegido do público da desordem, anonimato e perigos morais e físicos” (CAULFIELD, 2000, p.33). Essa oposição tem instigado os historiadores na investigação dos meandros conferidos a esfera pública e privada.
Focalizando nessa dualidade existente entre os planos do social rivalizados, Maria Izilda Matos, afirma sobre a relevância da categoria gênero ao perceber a historicidade entre o público/privado,

Nesse sentido, a reconstrução das categorias público e privado a partir da perspectiva feminina pode ajudar a clarificar a questão. Os limites entre o público e privado foram mais explicitados com a definição das esferas sexuais e da delimitação de espaços para o sexo... A representação do lar e da família em termos naturais, e da esfera pública, ao contrário, como instância histórica, foi uma herança vitoriana da qual emerge o dualismo público/privado, reafirmando o privado como espaço da mulher, ao destacar a maternidade como necessidade, e o espaço privado como lócus da realização das potencialidades femininas (MATOS, 1997, p.99-100).  

Com a disseminação da corrente historiográfica conhecida por Nova História Cultural tem-se, cada vez mais, se desenvolvido estudos acerca do imaginário, da sexualidade e das relações de gênero. Assuntos relativos ao desvendamento das práticas cotidianas, aos comportamentos sociais e valores de uma dada cultura passaram a ser tratados na ordem do dia, desviando o olhar de inúmeros historiadores para as diversificadas imagens que captam as estruturas simbólicas e seus processos, e mecanismos de divulgação localizados na tessitura do social. Compreendendo os componentes da cultura, esta, por sua vez, pensada “como um conjunto de significados, partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo” (PESAVENTO, 2005, p.15).
Percebendo a ordem dos acontecimentos numa perspectiva da longa duração ainda no século XIX, observa-se que,

Embora os homens da elite frequentassem diversos espaços urbanos, as senhoras e as senhoritas geralmente não se expunham pelas ruas, mantendo-se em espaços privados protegidos, debruçadas sobre as janelas ou reunidas em cadeiras a porta da residência (CAULFIELD, 2000, p.111).

A figura da mulher no século XIX encontrava-se rigidamente atingida pelas medidas moralizantes. O instinto maternal e a inibição sexual inata faziam com que a mulher “normal” fosse submissa e casta, ao passo que a fragilidade psíquica a tornava suscetível a contaminação física e moral. Sua função maior era a vida doméstica, porque o “espaço público era domínio dos homens, mais agressivos por natureza. O instinto sexual mais desenvolvido e o fraco senso de pudor justificavam sua liberdade sexual. Para muitos, a abstinência sexual era até prejudicial à saúde do homem” (CAULFIELD, 2000, p.120).
Aos poucos esse quadro foi sendo superado de forma lenta e gradual ocasionados por fatores internos da própria cidade e externos, que refaziam os obstáculos historicamente construídos no que consiste ao aumento do numero de jovens de classe média e alta, que passaram a frequentar as áreas ainda antes inexploradas por elas.
A autonomia feminina se tornava um ameaça para a resistência de imposição masculina dentro do lar. Para a época da década de 1950, o adultério era associado à esfera da vergonha, um verdadeiro tabu social, tido como escândalo social, associado às mulheres, enquanto para os homens era considerado um comportamento característico, normal e natural ao seu instinto, levando sempre a poligamia. Mary Del Priore, em seu livro História do Amor no Brasil, destaca que, “a infidelidade masculina era considerada um problema de foro íntimo, não manchando a reputação das esposas traídas, a infidelidade feminina significava escândalo social e estava associada ao crime” (DEL PRIORE, 2005, p.265).
O adultério foi tema central e possessivamente perseguido por Nelson Rodrigues em seus contos, com histórias trágicas, que como ele mesmo disse, saíam de casos que lhes contavam no ambiente inspirador dos subúrbios cariocas, ajudou a efetivar a sua fama de “tarado” e criou empecilhos para se tornar um dos maiores contistas de nossa língua. Em seu livro de memórias, salienta o intenso interesse dos leitores com a publicação da coluna diária, pois, “quando saí da Última Hora, e acabei A vida como ela é... o telefone não parava. Homens e mulheres queriam saber se não ia sair mais e por quê. Dir-se-ia que o problema do brasileiro é em ser – ou não ser traído” (RODRIGUES, 1967, p.98).    
Nelson mais do que nunca sabia encantar e provocar os leitores com histórias de mulheres adúlteras e transgressoras, um assunto que se tornava palpitante naquela época, segundo o que ele diz, “se as novas gerações me perguntassem o que era A vida como ela é... diria: era sempre a história de uma infiel” (RODRIGUES, 1967, p.98), por isso o sucesso, em torno da seção jornalística, pelo fato da preocupação com tal questão permear o imaginário popular, da coletividade estar atenta a tais questões que influenciavam e determinavam o universo familiar, e principalmente as imagens que a sociedade atribuía à moral das mulheres.
Mas o interessante está no sentido das histórias destinadas a evidenciar aquilo que estaria sendo abominado pelos habitantes da cidade. Aí se encontra o nível de ironia exposta na obra e usada como recurso de comunicação com o publico leitor. Os códigos de moralidade vigentes estariam sendo duramente atacados e criticados por suas personagens retiradas do próprio contexto analisado, gerando polêmicas e debates, sendo comumente taxado de “tarado”, “pervertido”, e acima de tudo inimigo da família brasileira e dos bons costumes que a regiam.
Nelson Rodrigues se sentiu atraído pela vida jornalística desde sua adolescência quando inaugurou o seu próprio jornal A Alma Infantil, um tabloide de quatro páginas. Ele “queria ser como seu pai, um espadachim verbal” (CASTRO, 1992, p. 60). Foi em meio ao contexto da Rua Alegre, no qual vivenciou e se impregnou das mais diversificadas histórias passadas na vizinhança e dentro de sua própria família, que Nelson “espremeria até a última gota de suco em suas futuras peças, romances, contos e crônicas” (CASTRO, 1992, p.22).
No conto “A dama da lotação”, um dos contos mais destacados da obra e que resultou em filme e telenovela, percebe-se o elemento conflitivo de sua narrativa, a suposta traição da mulher, que remete a uma fúria incontestável do marido. Carlinhos vai aos poucos desconfiando da fidelidade da esposa, Solange, que pegava a lotação, e sempre se encontrava com um homem diferente e o traía. Com a descoberta da infidelidade da esposa, Carlinhos se mete em uma cama e se dispõe a fingir de morto. Evidencia-se nesse conto uma crescente fragilidade da autoridade masculina perante o comportamento da esposa, o marido se sente desafiado sobre o domínio do lar e a perda da honra.
Em “Casal de três”, o personagem Filadelfo se dirige até o sogro, o Dr. Magarão, e apresenta sua situação de indignação perante a sua vida conjugal. Casado com Jupira, comenta que sentia de fato uma melancolia tremenda (RODRIGUES, 1992, p.27). Essa constatação era refletida pela falta de capricho de sua esposa, “não se enfeitava, não perfumava, até cheirava mal” (RODRIGUES, 1992, p.28). Porém, após um mês, Filadelfo percebe alterações no comportamento da esposa, agora “a mulher pintada, perfumada, se atira aos seus braços” (RODRIGUES, 1992, p.28). A partir da nova personalidade apresentada por Jupira, aos poucos, começa a desconfiar e se preocupar perante o sogro, este, por sua vez, o adverte para prescindir de levar a sério a representação de sua mulher e tecer suspeitas sobre ela. Dias depois Filadelfo recebe uma carta anônima nos seguintes dizeres: “tua mulher e o Cunha”, este descrito como “o seu maior amigo e jantava três vezes por semana ou, no mínimo, duas, com o casal. A carta anônima dava até o número do edifício e o andar do apartamento em Copacabana onde os amantes se encontravam” (RODRIGUES, 1992, p.29). A partir dessa constatação constrói um estado de ciúmes do seu amigo Cunha, diante das imagens de transformação da mulher, “certa vez jantavam os três, quando cai  guardanapo de Filadelfo. Este abaixa-se para apanhar e vê, insofismavelmente, debaixo da mesa, os pés da mulher e do Cunha, numa fusão nupcial, uns por cima dos outros” (RODRIGUES, 1992, p.30).
Ambos os contos retratam os conflitos dentro do ambiente doméstico: a mulher que sente desejos por outros homens que não os seus maridos, e vai procurar outras relações fora de casa e comete o adultério.
O Código Civil, de 1916, expressa o pensamento acerca do adultério e suas implicações dentro da esfera das relações íntimas requerendo punição da mulher diante de uma prova ou mesmo suspeita do fato. Já no tocante aos homens, a natureza de suas relações extraconjugais ou mesmo “sua relação física com outras mulheres pouco significava perante a lei, mas a manutenção da concubina poderia significar a transgressão do seu papel de chefe de uma única família” (ZECHLINSKI, 2007, p.414).
A criação literária de Nelson coloca em cena valores tradicionais e modernos no que se refere às práticas afetivas experimentadas por homens e mulheres num cenário de transgressões e desníveis. O choque de tais representações de gênero eleva e traz a tona uma reconfiguração de relações pessoais desgastadas gerando o redimensionamento das mesmas por meio de situações situadas na esfera do banal e do cotidiano.
Pode-se dizer de um autor-ator e de sua visão existencial. Visão que marcou sua vida e se fez presente em suas obras, sustentadas pela presença marcante de sua própria subjetividade, o relevo de sua estética ficcional, a inversão de sua própria vida presente e a recuperação de reminiscências do passado que se articulam na cosmovisão de ser carioca e do próprio homem brasileiro. O “texto literário do jornalista, cronista e escritor Nelson Rodrigues é um precioso laboratório para se tentar apreender a origem de alguns traços da subjetividade deste autor” (MARIANI, 2009, p.95).     
Se no século XIX experimentou-se um ambiente de intensa remodelação da esfera familiar por meio de processos de modernização e privatização num contexto de abandono de costumes coloniais superados pelo programa civilizador urbano direcionado para o renovo cidade, não deixou de lado as alterações por meio da esfera do íntimo e das propostas de reformulação urbana dentro de uma perspectiva europeia. Aos poucos o abismo social se rompia e as mulheres se inseriam na vida social muito mais condicionadas pelas novas circunstâncias históricas do que próprias do seu tradicional lugar de ocupação doméstica. Com a maciça presença da mão de obra nas fábricas de armamentos, principalmente durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), recolocou suas expectativas numa ótica do mundo do trabalho trazendo tensões no retorno ao lar e um constante agravamento de fissuras em relação aos sexos. A valorização do trabalho feminino foi decisiva no rompimento do espaço privado, pois foram “as primeiras décadas deste século, época de transição de valores, assistem à passagem da estrutura patriarcal para uma nova ordem econômica e social, onde as ideologias de cunho individualista marcam presença” (TRIGO, 1989, p.88).
A família passou por um processo de pulverização e adaptação das novas formas de sociabilidades. O modelo de família que herdamos do século XIX esfacelou-se, resultado do individualismo moderno e da recusa de uma estrutura extremamente rígida e normativa, onde era “a casa, protegida pelo muro espesso da vida privada que ninguém poderia violar - mas também secreta, fechada, exclusiva, normativa, palco de incessantes conflitos que tecem uma interminável intriga, fundamento da literatura romanesca do século” (PERROT, 1993, p.78). Como resultado “nesta perspectiva, o século XX veria se generalizar lentamente em toda a população uma forma de organização da vida com dois domínios opostos e claramente distintos: o público e o privado” (PROST, 2009, p.16). Então,

Desta forma, o confronto entre o mundo da casa e o mundo da rua aparece constantemente nas histórias contadas por Nelson Rodrigues, em “A vida como ela é...”. Ele apresenta o conflito das personagens que não conseguem perceber as fronteiras entre a casa e a rua. Pelo fato de o universo familiar, escondido nas paredes da casa, passar a ser mostrado, no espaço público – apesar de bastante lida e com longa duração (dez anos) –, “A vida como ela é...” rendeu a Nelson Rodrigues a fama popular de “tarado” (PARENTE, 2006, p.4).

Partindo do olhar cotidiano dos leitores da coluna, as histórias refletiam as cenas do imaginário social, a preocupação diante da temática do adultério e dos assuntos recorrentes a esfera do privado, da casa, sendo livremente recriadas no espaço da rua. Nelson nos legou uma “pintura”, um olhar “etnográfico” e social sobre a cidade, num incessante diálogo com as normas que regiam a sexualidade de seus habitantes onde a:

[...] modernização devastou as relações sociais, os valores e a própria natureza da experiência urbana carioca. Essa devastação é observada principalmente por meio do espaço publico, de historias que aconteceram nas ruas, no Maracanã, em bares e restaurante, em festas, nas redações dos jornais (FACINA, 2004, p.155).

As representações (CHARTIER, 1990) do feminino informadas por Nelson são das mais variadas imagens, algumas delas “sendo mulheres dóceis, amáveis e meigas, até mesmo as grosseiras, mal educadas, e nada amorosas” (ZECHILINSKI, 2007, p. 417-418), algumas tomadas por desejos, gerando consigo comportamentos desviantes, que quebravam a autoridade e o poder da dominação masculina. O ambiente da cidade propiciava encontros furtivos e a família nuclear, que se resumia ao marido, esposa e filhos, agora se restringe a marido, esposa e amante. Suas impressões da cidade e dos sujeitos nela envolvidos são tomadas pelo momento presente, mas também de histórias que contavam quando Nelson era criança no espaço dos subúrbios cariocas, local de sua constituição como indivíduo e de temas para as apropriações transpostas em suas obras.

REFERÊNCIAS

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ZECHILINSKI, B. P. “A vida como ela é...”; imagens do casamento e do amor em Nelson Rodrigues. Cadernos Pagu, v. 29, p. 399-428, jul-dez 2007.

* Artigo apresentado no II CONGRESO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA DO SUDESTE GOIANO, 2011 na cidade de Catalão, é publicado na Revista Emblemas do Departamento de História e Ciências Sociais da UFG/ Campus Catalão.