Resumo: Neste texto, a intenção é adentrar a década de
1950, onde a mulher, cada vez mais, intensificava o processo de emancipação de
sua antiga condição histórica herdada. Sua participação nos espaços públicos da
cidade estimulou a redefinição dos papéis sociais estabelecidos e contribuíram
para a superação do ideal de dominação masculina que imperava sobre ela. O
objetivo consiste em compreender as representações elaboradoras por Nelson
Rodrigues, expostas no jornal a Última Hora, em sua coluna diária “A
vida como ela é...” percebendo nos contos que aí figuravam a presença do
imaginário popular em torno das mulheres e as imagens por ele elaboradas do
agitado cenário urbano em transformação da sociedade carioca de meados do
século XX.
Palavras-chave: privado, público, gênero.
Abstract:
This paper consists in entering the 1950 decade,
when women were increasingly intensifying the
emancipation process from their inherited former historical condition. Their
participation in the public spaces of the city stimulated the already
established social roles redefinition, and contributed to overcome the ideal of
masculine domination that reigned over them. The goal is to understand
Rodrigues’ representations exposed in his daily column “A vida como ela é…” in Última Hora newspaper, noticing in each
of those short stories the presence of the popular imaginary around women, the
images of the fussy urban scenario in transformation from the society in Rio de
Janeiro around the 20th century created by Nelson Rodrigues.
Key-words:
private, public, genre.
Nelson Rodrigues (1912-1980), dramaturgo
consagrado, um dos poucos escritores de nossa língua portuguesa que retratou de
forma verossímil o ambiente dos espaços públicos e dos agentes sociais neles
envolvidos da cidade do Rio de Janeiro no decorrer de meados do século XX.
Aqui nos ocupamos da década de 1950, período
rico de inspiração para a composição das mais variadas obras do autor e de
percepção da sociedade a sua volta. Sua popularidade e suas histórias estiveram
intimamente associadas aos jornais impressos e à consequente circulação e
recepção dos mesmos na presença da coletividade urbana carioca.
Grande parte de sua literatura esta associada ao
folhetim diário no qual atuou boa parte de sua vida. Aqui destacamos os anos de
1951 e 1961, no jornal a Última Hora, de Samuel Wainer. A princípio sua coluna
destinava a compor a seção do noticiário policial, no qual já havia trabalhado
durante oito anos de sua vida, lançada em outubro de 1951, com o título “Atirem a primeira pedra”, sendo logo, em
16 de novembro de 1951, alterada para “A
vida como ela é...”. Para Wainer a coluna diária passaria a compor os fatos
inerentes ao resgate da realidade. Nelson aceitou de bom gosto o convite, logo
sugerindo e alterando o nome de sua coluna, então, “muito mais sugestivo, ele
achava, e dava um toque de fatalidade, de ninguém-foge-ao-seu-destino. Samuel
Wainer concordou e Nelson foi escrever a primeira coluna” (CASTRO, 1992,
p.236). A influência do jornalismo norte-americano estava sendo bastante
sentida na época, elementos como objetividade e neutralidade começavam a ser
idealizados para a renovação da imprensa brasileira e carioca.
Suas atraentes histórias permearam o universo
dos habitantes da cidade, estimulando o hábito da leitura, foi com essa coluna
que Nelson Rodrigues tornou-se uma personalidade de caráter popular, além de
elevar a sua fama de “tarado” em meio à opinião pública.
“A vida como ela é...” com um
fascinante elenco de jovens desempregados, comerciários e “barnabés”, tendo
como cenários a Zona Norte, onde eles viviam; o Centro, onde trabalhavam; e, esporadicamente,
a Zona Sul, aonde só iam para prevaricar (CASTRO, 1992, p.237).
Utilizando dos contos da obra como suporte
documental na análise dos comportamentos desviantes e de valores morais
inerentes e esperados pelas mulheres, se nota cada vez mais a ameaça e a
dissolução do poder de dominação masculina, frentes às oportunidades que a
industrialização da sociedade suscitava, e das novas formas de sociabilidades
encontradas.
O texto literário tratado de acordo com sua
historicidade e especificidade se torna uma fonte rica para a decodificação de
variados discursos que por vezes outros documentos oficiais não sejam capazes
de conter. A interlocução forjada entre literatura e história permite “compreender
a obra literária como resultado da sublimação de dados sociais que, de um lado,
fazem dela expressão de uma sociedade e de um momento histórico” (CANDIDO,
1985).
O tema recorrente nas histórias produzidas por
Nelson girava em torno da infidelidade feminina, que nessa época pertencia à
esfera da vergonha, considerada um verdadeiro tabu dentro das relações
amorosas, no que concerne a honestidade sexual da imagem feminina. Seu destino
era a vida de dona de casa, responsável pelo cuidado dos filhos, do marido e da
unidade doméstica. Por isso a intensa receptividade da narrativa de Nelson
perante os leitores da cidade, no ato de desvelar assuntos recorrentes a esfera
do íntimo e da honra familiar. Como afirma Beatriz Polidori Zechlinski,
Dessa forma a relação das histórias de “A vida como ela é...” com a realidade
não se baseava no fato da traição ou não das mulheres, mas na possibilidade
dessas traições, que povoava a imaginação das pessoas, suscitando a leitura da
coluna do Jornal Última Hora (ZECHLINSKI, 2007, p.410).
O contexto social estava se alterando e
reinventando as imagens ligadas ao feminino e ao masculino, estabelecidas nas
práticas sociais. Estas não ficaram imunes ou mesmo estáveis num ambiente de
intensa industrialização, modernização e individualização, causando uma efetiva
redefinição de papéis, e trazendo consigo um quadro de tensões sociais,
gestadas em torno das relações de gênero e normas de conduta, perpetuadas no
seio do universo familiar.
A intensificação da participação das mulheres no
espaço físico urbano da cidade, com maior penetração nos locais de trabalho e
acesso a educação, lugares até então pouco explorados por elas, trouxeram
consigo novas imagens da feminilidade na contramão dos valores existentes que a
circundavam diante dos comportamentos esperados por elas, dentro do universo
doméstico e sobre a tutela da autoridade masculina.
Por isso o campo das representações rodriguianas
é um roteiro pertinente e possível na busca por perceber os conflitos das
relações de gênero e amorosas no período dos anos da década de cinquenta e
desvendar o imaginário social da sociedade carioca por meio das representações
sobre a classe média urbana. As mais variadas temáticas tratadas diariamente
por meio da coluna iam de encontro com a realidade social apresentada pelo
cotidiano dos leitores.
A imagem feminina se faz elemento central dentro
das tensões provocadas e tratadas por Nelson, diante das novas oportunidades
advindas da modernização do espaço físico em transformação, estabelecendo
contradições evidentes no que concernem as relações firmadas e naturalizadas
entre o público e privado. A superação dos estigmas e obstáculos enraizados na
instituição familiar diante da presença da mulher na esfera da vida pública
urbana, até então destinada aos trabalhos domésticos, aos cuidados com os filhos
e a integridade moral da família, foram expostos por meio de sua narrativa que
refletia o realismo das situações retratadas (BARTHES, 1984), que não se cansa
de explicitar aspectos vivenciados pelo autor em diversos lugares da cidade, no
cenário das ruas, dos bares, dos escritórios e das repartições públicas,
espaços de lazer...
A dicotomia entre o público e o privado, o lar e
a rua, se tornam constantes nos confrontos que perpassavam as relações de
gênero em meados do século XX. A dissolução dos velhos princípios da família
patriarcal brasileira no que se refere ao controle social sobre o corpo
feminino e a autoridade masculina é projetada com relevância dentro da imersão
psicológica encontrada nas histórias contadas por Nelson e no constructo de
seus mais variados personagens, sempre na “relação tão visceral com a cidade,
sua história, cacoetes e paixões” (DIAS, 2005, p.101).
A realidade social carioca das ruas foi o
laboratório existencial da experiência de vida de Nelson. Sua infância,
impressões, acontecimentos que permearam a sua família, na região da Aldeia
Campista, são relatadas com intenso destaque na estética de suas narrativas,
sua coluna era lida com entusiasmo pelo fato de expor os fatos corriqueiros da
sociabilidade urbana, priorizando questões que se sucediam em torno das
relações amorosas na região da Zona Norte do Rio de Janeiro, onde o intercâmbio
com o centro, local de trabalho, e a Zona sul, espaço de divertimento e
encontros furtivos, estão em evidência nos contos de A vida como ela é...
O interesse maior de investigação deste estudo
se encontra no campo das normas de conduta e da honra sexual, para isso,
encontramos pesquisas relevantes como a de Sueann Caulfield, pesquisadora norte
americana que veio ao Brasil interessada em aprofundar mais sobre crimes
sexuais e valores que giravam em torno da honra sexual pelos mais amplos
setores organizados da sociedade, e num plano maior, como esse conceito estava
intimamente ligado a modernização da nação. Ela, por sua vez, concentra a sua
obra entre a Primeira Guerra Mundial e o inicio do Estado Novo, onde “para
muitas autoridades religiosas da época, assim como para as elites políticas e
profissionais, a relação era simples: a honra sexual era à base da família, e
esta, a base da nação” (CAULFIELD, 2000, p.26).
A força de moralização da instituição familiar
preocupava e afetava todo o meio social, seu suposto desajuste se configuraria
em situação de caos, e a consequente dissolução da família. Nesse sentido, o
que se pode verificar na formação desse quadro era,
[...] o que essas elites não percebiam, ou pelo
menos não admitiam, era que a honra sexual representava um conjunto de normas
que, estabelecidas aparentemente com base na natureza, sustentavam a manutenção
da lógica das relações desiguais do poder nas esferas privada e pública
(CAULFIELD, 2000, p. 26).
O conceito de honra sexual era tomado de
diversos significados pela opinião pública, ganhando destaque durante o século
XX, principalmente durante o governo de Getúlio Vargas, e seus esforços em
zelar pela moral pública e pelos valores inerentes da família.
A família brasileira, que durante muito tempo
vem sendo pensada como um ramo extenso, sob a estrutura do modelo patriarcal,
delimitada pelo poder do masculino sobre os demais membros, como afirma
Gilberto Freyre (1987) partir dos anos 50 passou a ser rigidamente contestada
por inúmeros historiadores que
[...] passaram a expandir suas pesquisas para
além das pesquisas de elite, encontrando uma grande variedade de organizações
familiares, incluindo, em muitas regiões, inúmeras famílias chefiadas por
mulheres. Esses pesquisadores demonstraram que essa organização era muito mais
diversificada e a sociedade muito mais dinâmica do que estabelecia o modelo de
Freyre. Mesmo membros da elite levavam vidas que desviavam dos requisitos
morais desse modelo (CAULFIELD, 2000, p.30).
Para o antropólogo Roberto Da Matta “a casa é o
espaço privado da ordem, da hierarquia social natural baseada em sexo e idade;
a rua, o espaço desprotegido do público da desordem, anonimato e perigos morais
e físicos” (CAULFIELD, 2000, p.33). Essa oposição tem instigado os
historiadores na investigação dos meandros conferidos a esfera pública e
privada.
Focalizando nessa dualidade existente entre os
planos do social rivalizados, Maria Izilda Matos, afirma sobre a relevância da
categoria gênero ao perceber a historicidade entre o público/privado,
Nesse sentido, a
reconstrução das categorias público e privado a partir da perspectiva feminina
pode ajudar a clarificar a questão. Os limites entre o público e privado foram
mais explicitados com a definição das esferas sexuais e da delimitação de
espaços para o sexo... A representação do lar e da família em termos naturais,
e da esfera pública, ao contrário, como instância histórica, foi uma herança
vitoriana da qual emerge o dualismo público/privado, reafirmando o privado como
espaço da mulher, ao destacar a maternidade como necessidade, e o espaço
privado como lócus da realização das potencialidades femininas
(MATOS, 1997, p.99-100).
Com a disseminação da corrente historiográfica
conhecida por Nova História Cultural
tem-se, cada vez mais, se desenvolvido estudos acerca do imaginário, da
sexualidade e das relações de gênero. Assuntos relativos ao desvendamento das
práticas cotidianas, aos comportamentos sociais e valores de uma dada cultura
passaram a ser tratados na ordem do dia, desviando o olhar de inúmeros
historiadores para as diversificadas imagens que captam as estruturas
simbólicas e seus processos, e mecanismos de divulgação localizados na
tessitura do social. Compreendendo os componentes da cultura, esta, por sua
vez, pensada “como um conjunto de significados, partilhados e construídos pelos
homens para explicar o mundo” (PESAVENTO, 2005, p.15).
Percebendo a ordem dos acontecimentos numa
perspectiva da longa duração ainda no século XIX, observa-se que,
Embora os homens da elite frequentassem diversos
espaços urbanos, as senhoras e as senhoritas geralmente não se expunham pelas
ruas, mantendo-se em espaços privados protegidos, debruçadas sobre as janelas
ou reunidas em cadeiras a porta da residência (CAULFIELD, 2000, p.111).
A figura da mulher no século XIX encontrava-se
rigidamente atingida pelas medidas moralizantes. O instinto maternal e a
inibição sexual inata faziam com que a mulher “normal” fosse submissa e casta,
ao passo que a fragilidade psíquica a tornava suscetível a contaminação física
e moral. Sua função maior era a vida doméstica, porque o “espaço público era
domínio dos homens, mais agressivos por natureza. O instinto sexual mais
desenvolvido e o fraco senso de pudor justificavam sua liberdade sexual. Para
muitos, a abstinência sexual era até prejudicial à saúde do homem” (CAULFIELD,
2000, p.120).
Aos poucos esse quadro foi sendo superado de
forma lenta e gradual ocasionados por fatores internos da própria cidade e
externos, que refaziam os obstáculos historicamente construídos no que consiste
ao aumento do numero de jovens de classe média e alta, que passaram a
frequentar as áreas ainda antes inexploradas por elas.
A autonomia feminina se tornava um ameaça para a
resistência de imposição masculina dentro do lar. Para a época da década de
1950, o adultério era associado à esfera da vergonha, um verdadeiro tabu
social, tido como escândalo social, associado às mulheres, enquanto para os
homens era considerado um comportamento característico, normal e natural ao seu
instinto, levando sempre a poligamia. Mary Del Priore, em seu livro História do Amor no Brasil, destaca que,
“a infidelidade masculina era considerada um problema de foro íntimo, não
manchando a reputação das esposas traídas, a infidelidade feminina significava
escândalo social e estava associada ao crime” (DEL PRIORE, 2005, p.265).
O adultério foi tema central e possessivamente
perseguido por Nelson Rodrigues em seus contos, com histórias trágicas, que
como ele mesmo disse, saíam de casos que lhes contavam no ambiente inspirador
dos subúrbios cariocas, ajudou a efetivar a sua fama de “tarado” e criou
empecilhos para se tornar um dos maiores contistas de nossa língua. Em seu
livro de memórias, salienta o intenso interesse dos leitores com a publicação
da coluna diária, pois, “quando saí da Última
Hora, e acabei A vida como ela é...
o telefone não parava. Homens e mulheres queriam saber se não ia sair mais e por
quê. Dir-se-ia que o problema do brasileiro é em ser – ou não ser traído”
(RODRIGUES, 1967, p.98).
Nelson mais do que nunca sabia encantar e
provocar os leitores com histórias de mulheres adúlteras e transgressoras, um
assunto que se tornava palpitante naquela época, segundo o que ele diz, “se as
novas gerações me perguntassem o que era A
vida como ela é... diria: era sempre a história de uma infiel” (RODRIGUES,
1967, p.98), por isso o sucesso, em torno da seção jornalística, pelo fato da
preocupação com tal questão permear o imaginário popular, da coletividade estar
atenta a tais questões que influenciavam e determinavam o universo familiar, e
principalmente as imagens que a sociedade atribuía à moral das mulheres.
Mas o interessante está no sentido das histórias
destinadas a evidenciar aquilo que estaria sendo abominado pelos habitantes da
cidade. Aí se encontra o nível de ironia exposta na obra e usada como recurso
de comunicação com o publico leitor. Os códigos de moralidade vigentes estariam
sendo duramente atacados e criticados por suas personagens retiradas do próprio
contexto analisado, gerando polêmicas e debates, sendo comumente taxado de
“tarado”, “pervertido”, e acima de tudo inimigo da família brasileira e dos
bons costumes que a regiam.
Nelson Rodrigues se sentiu atraído pela vida jornalística desde sua
adolescência quando inaugurou o seu próprio jornal A Alma Infantil, um tabloide de quatro páginas. Ele “queria ser
como seu pai, um espadachim verbal” (CASTRO, 1992, p. 60). Foi em meio ao
contexto da Rua Alegre, no qual vivenciou e se impregnou das mais
diversificadas histórias passadas na vizinhança e dentro de sua própria
família, que Nelson “espremeria até a última gota de suco em suas futuras
peças, romances, contos e crônicas” (CASTRO, 1992, p.22).
No conto “A dama da lotação”, um dos contos mais destacados da obra e
que resultou em filme e telenovela, percebe-se o elemento conflitivo de sua
narrativa, a suposta traição da mulher, que remete a uma fúria incontestável do
marido. Carlinhos vai aos poucos desconfiando da fidelidade da esposa, Solange,
que pegava a lotação, e sempre se encontrava com um homem diferente e o traía.
Com a descoberta da infidelidade da esposa, Carlinhos se mete em uma cama e se
dispõe a fingir de morto. Evidencia-se nesse conto uma crescente fragilidade da
autoridade masculina perante o comportamento da esposa, o marido se sente
desafiado sobre o domínio do lar e a perda da honra.
Em “Casal de três”, o personagem Filadelfo se dirige até o sogro, o Dr.
Magarão, e apresenta sua situação de indignação perante a sua vida conjugal.
Casado com Jupira, comenta que sentia de fato uma melancolia tremenda
(RODRIGUES, 1992, p.27). Essa constatação era refletida pela falta de capricho
de sua esposa, “não se enfeitava, não perfumava, até cheirava mal” (RODRIGUES, 1992, p.28). Porém, após um mês,
Filadelfo percebe alterações no comportamento da esposa, agora “a mulher
pintada, perfumada, se atira aos seus braços” (RODRIGUES, 1992, p.28). A partir
da nova personalidade apresentada por Jupira, aos poucos, começa a desconfiar e
se preocupar perante o sogro, este, por sua vez, o adverte para prescindir de
levar a sério a representação de sua mulher e tecer suspeitas sobre ela. Dias
depois Filadelfo recebe uma carta anônima nos seguintes dizeres: “tua mulher e
o Cunha”, este descrito como “o seu maior amigo e jantava três vezes por semana
ou, no mínimo, duas, com o casal. A carta anônima dava até o número do edifício
e o andar do apartamento em Copacabana onde os amantes se encontravam”
(RODRIGUES, 1992, p.29). A partir dessa constatação constrói um estado de
ciúmes do seu amigo Cunha, diante das imagens de transformação da mulher,
“certa vez jantavam os três, quando cai
guardanapo de Filadelfo. Este abaixa-se para apanhar e vê, insofismavelmente,
debaixo da mesa, os pés da mulher e do Cunha, numa fusão nupcial, uns por cima
dos outros” (RODRIGUES, 1992, p.30).
Ambos os contos retratam os conflitos dentro do ambiente doméstico: a
mulher que sente desejos por outros homens que não os seus maridos, e vai
procurar outras relações fora de casa e comete o adultério.
O Código Civil, de 1916, expressa o pensamento acerca do adultério e
suas implicações dentro da esfera das relações íntimas requerendo punição da
mulher diante de uma prova ou mesmo suspeita do fato. Já no tocante aos homens,
a natureza de suas relações extraconjugais ou mesmo “sua relação física com
outras mulheres pouco significava perante a lei, mas a manutenção da concubina
poderia significar a transgressão do seu papel de chefe de uma única família”
(ZECHLINSKI, 2007, p.414).
A criação literária de Nelson coloca em cena
valores tradicionais e modernos no que se refere às práticas afetivas
experimentadas por homens e mulheres num cenário de transgressões e desníveis.
O choque de tais representações de gênero eleva e traz a tona uma
reconfiguração de relações pessoais desgastadas gerando o redimensionamento das
mesmas por meio de situações situadas na esfera do banal e do cotidiano.
Pode-se dizer de um autor-ator e de sua visão
existencial. Visão que marcou sua vida e se fez presente em suas obras,
sustentadas pela presença marcante de sua própria subjetividade, o relevo de
sua estética ficcional, a inversão de sua própria vida presente e a recuperação
de reminiscências do passado que se articulam na cosmovisão de ser carioca e do
próprio homem brasileiro. O “texto literário do
jornalista, cronista e escritor Nelson Rodrigues é um precioso laboratório para
se tentar apreender a origem de alguns traços da subjetividade deste autor”
(MARIANI, 2009, p.95).
Se no século XIX experimentou-se um ambiente de
intensa remodelação da esfera familiar por meio de processos de modernização e
privatização num contexto de abandono de costumes coloniais superados pelo
programa civilizador urbano direcionado para o renovo cidade, não deixou de
lado as alterações por meio da esfera do íntimo e das propostas de reformulação
urbana dentro de uma perspectiva europeia. Aos poucos o abismo social se rompia
e as mulheres se inseriam na vida social muito mais condicionadas pelas novas
circunstâncias históricas do que próprias do seu tradicional lugar de ocupação
doméstica. Com a maciça presença da mão de obra nas fábricas de armamentos,
principalmente durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), recolocou suas
expectativas numa ótica do mundo do trabalho trazendo tensões no retorno ao lar
e um constante agravamento de fissuras em relação aos sexos. A valorização do
trabalho feminino foi decisiva no rompimento do espaço privado, pois foram “as
primeiras décadas deste século, época de transição de valores, assistem à
passagem da estrutura patriarcal para uma nova ordem econômica e social, onde
as ideologias de cunho individualista marcam presença” (TRIGO, 1989, p.88).
A família passou por um processo de pulverização
e adaptação das novas formas de sociabilidades. O modelo de família que
herdamos do século XIX esfacelou-se, resultado do individualismo moderno e da
recusa de uma estrutura extremamente rígida e normativa, onde era “a casa, protegida pelo muro espesso da vida privada que ninguém
poderia violar - mas também secreta, fechada, exclusiva, normativa, palco de
incessantes conflitos que tecem uma interminável intriga, fundamento da
literatura romanesca do século” (PERROT, 1993, p.78). Como resultado “nesta
perspectiva, o século XX veria se generalizar lentamente em toda a população
uma forma de organização da vida com dois domínios opostos e claramente
distintos: o público e o privado” (PROST, 2009, p.16). Então,
Desta forma, o confronto entre o mundo da casa e o mundo da rua aparece
constantemente nas histórias contadas por Nelson Rodrigues, em “A vida como ela
é...”. Ele apresenta o conflito das personagens que não conseguem perceber as
fronteiras entre a casa e a rua. Pelo fato de o universo familiar, escondido
nas paredes da casa, passar a ser mostrado, no espaço público – apesar de
bastante lida e com longa duração (dez anos) –, “A vida como ela é...” rendeu a
Nelson Rodrigues a fama popular de “tarado” (PARENTE, 2006, p.4).
Partindo do olhar cotidiano
dos leitores da coluna, as histórias refletiam as cenas do imaginário social, a
preocupação diante da temática do adultério e dos assuntos recorrentes a esfera
do privado, da casa, sendo livremente recriadas no espaço da rua. Nelson nos
legou uma “pintura”, um olhar “etnográfico” e social sobre a cidade, num
incessante diálogo com as normas que regiam a sexualidade de seus habitantes
onde a:
[...] modernização devastou as relações sociais,
os valores e a própria natureza da experiência urbana carioca. Essa devastação
é observada principalmente por meio do espaço publico, de historias que
aconteceram nas ruas, no Maracanã, em bares e restaurante, em festas, nas
redações dos jornais (FACINA, 2004, p.155).
As representações (CHARTIER, 1990) do feminino informadas
por Nelson são das mais variadas imagens, algumas delas “sendo mulheres dóceis,
amáveis e meigas, até mesmo as grosseiras, mal educadas, e nada amorosas”
(ZECHILINSKI, 2007, p. 417-418), algumas tomadas por desejos, gerando consigo
comportamentos desviantes, que quebravam a autoridade e o poder da dominação
masculina. O ambiente da cidade propiciava encontros furtivos e a família
nuclear, que se resumia ao marido, esposa e filhos, agora se restringe a
marido, esposa e amante. Suas impressões da cidade e dos sujeitos nela
envolvidos são tomadas pelo momento presente, mas também de histórias que
contavam quando Nelson era criança no espaço dos subúrbios cariocas, local de
sua constituição como indivíduo e de temas para as apropriações transpostas em suas
obras.
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* Artigo apresentado no II CONGRESO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA DO SUDESTE GOIANO, 2011 na cidade de Catalão, é publicado na Revista Emblemas do Departamento de História e Ciências Sociais da UFG/ Campus Catalão.
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