sábado, 11 de janeiro de 2014

NELSON RODRIGUES, LITERATURA E JORNALISMO NOS ANOS DOURADOS (1950-1959)


Leandro Antonio dos Santos¹
Resumo: Este texto tem por objetivos entender a narrativa de Nelson Rodrigues no período dos Anos Dourados tendo como suporte a obra “A vida como ela é...”, e a influência de sua imagem e concepção estética como jornalista em sua coluna diária. Nelson esteve inserido por meio de sua escrita nas tensões de sua época é revela pelos seus tipos sociais da sociedade carioca em transformação, a transgressão, num contexto de mudanças comportamentais, sua contribuição e altamente relevante para o entendimento da família brasileira, principalmente nas imagens de feminino e masculino. Intenta-se também destacar a sua maneira de conceber o jornal, de seu processo de escritura, nas fronteiras da realidade e a ficção, e de sua vivência social emanada das ruas, espaço de onde tanto fala. A Nova História Cultural evidencia abordagens situadas no campo do cotidiano, nas relações de gênero, na família e na imprensa como meio de compreensão da realidade vivida, estas serão centrais na discussão proposta. Tentaremos elucidar as representações sociais construídas por um escritor afinado com o seu tempo e as práticas sociais que esses comportamentos ocasionavam. Observaremos ainda as mudanças pelas quais a imprensa carioca passava e as críticas de Nelson Rodrigues à este processo modernizador.
 Palavras-Chave: Nelson Rodrigues; jornalismo; Anos Dourados.
 Na tentativa de elucidar as representações sociais produzidas por Nelson Rodrigues (1912-1980) no ambiente do jornal, está a sua capacidade de criação e reprodução da realidade por meio da coluna A vida como ela é..., esta serviu como caixa de ressonância da sociedade no período de transformações politicas-estruturais, culturais, tecnológicas, denominado de Anos Dourados.
Nelson recebeu a vocação jornalística do pai, Mário Rodrigues, que desde cedo, já adolescente tomou contato com o universo composto por notícias e fatos relacionados à coletividade urbana, aqui fluminense, local de onde partem as suas impressões do homem que forja sua experiência nas relações sociais construídas na cidade e no que ela tem de novo e liberalizante em relação aos costumes vigentes.
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¹ Graduado em História pela Universidade Federal de Goiás. Email: leandrosantoshis@gmail. com


Nelson Rodrigues revelou sua potencialidade de escrita por meio de jornais, no contato direto com a sensibilidade coletiva, emitindo representações sociais e deixando uma marca no imaginário popular, colocando na ordem do dia tipos sociais das ruas, inquietações vividas por pessoas comuns, dramas localizados, sentidos e compartilhados pela sociedade da década de 1950.
Segundo Xavier (2011) sua vida enquanto escritor de situações diárias do cotidiano esta ligada a sua maneira peculiar de associar sensação é percepção do mundo a sua volta, que lhe aparece por meio de conflitos, tensões e dilaceramentos em torno das relações humanas e familiares que se apresentam como catalizadoras das reações mais diversas em seus textos e na sociedade que se inteirava deles.
 O homem aparece em descompasso com o que lhe aparenta ser o certo e o correto. O modelo a ser seguido e vigiado não é mais hegemônico e natural. Mudam-se as regras, alteram-se os papéis, um novo mundo surge das páginas do jornal, da vida própria do escritor que a vivencia. Texto e contexto parecem-se entrelaçar-se num jogo dialético de posições contrárias, mas que se fazem sentido num processo civilizador que destrói a aparência das coisas, que renova a permanência do tradicionalismo do que é ser homem e mulher no mundo contemporâneo.
Quando tinha apenas quatorze anos de idade se meteu em calças compridas e foi trabalhar no jornal do pai, compondo um pequeno jornalzinho que saia junto com A Manhã, ali o jovem escritor se metera no ambiente da redação em um “tabloide de quatro páginas [...] era uma espécie de “A Manhã” de calças curtas, embora Nelson já tivesse deixado de usá-las. Ele queria ser como seu pai, um espadachim verbal” (CASTRO, 1992, p.60).
Sua vida daí em diante passa a se confundir com os folhetins. Nesse momento de contato inicial de uma viagem duradoura de toda uma vida ele se mostrava em seus textos com “petulância de adolescente” com ataques pessoais, onde foi que:
Logo no primeiro número do tabloide desencadeou um ataque sem tamanho com o padre Félix Barreto, diretor do Ginásio do Recife, acusando-o de ter torturado seu primo Augusto, aluno do ginásio, a mando do governador Sérgio Loreto. “É inútil dizer que o padre Félix Barreto é um farrapo humano desprezível”, bramava Nelson no artigo, “um reles bandido, um pobre louco cujo cérebro a sífilis comeu e cuja lama é lavada durante duzentas vezes na latrina”. Em outro trecho, taxava o pio padre Félix, futuro nome do colégio no Recife, de “celebre violador de pretas” (CASTRO, 1992, p. 60).
    
O jornal que Nelson começará a escrever a metade deles foi destinado para o Recife. Aos poucos na segunda edição do jornal deixava de lado as questões pernambucanas
mas pedia o fechamento da Academia Brasileira de Letras pela polícia, classificava Epitácio Pessoa de “uma pústula social” e massacrava por atacado a Escola Nacional de Belas Artes, acusando-a de ser um antro de “marmanjos imbecis” (CASTRO, 1992, p. 61).

O destino do jornal não reservará a Mário Rodrigues o sucesso desejado, logo perdeu o controle para seu sócio Antônio Faustino Porto, por motivos de dívidas que aos poucos foi ganhando espaço nos investimentos do jornal, foi assim que Porto assumiu o controle da empresa, mas “para Mário Rodrigues, tornara-se muito fácil abrir outro à hora que quisesse. Afinal, era ou não amigo do vice-presidente Melo Viana? [...] Mário lançou seu novo jornal e o de mais escandaloso sucesso: “Crítica”” (CASTRO, 1992, p. 68). Neste novo espaço Nelson persistiria em torno da pagina de policia, se tornando um grande sucesso de vendas.
Fato marcante em sua vida, e que marca de maneira a deixar marcas profundas em sua escrita foi a morte de seu irmão Roberto Rodrigues em 1929, que desencadeou a morte de Mário, e durante a Revolução de 30 a redação a “Crítica” teve sua redação empastelada, deixando assim de existir. As:
Redações e oficinas foram invadidas e empasteladas. Máquinas de escrever eram atiradas na rua, prensas eram destruídas a golpes de canos de ferro, gavetas inteiras de tipos eram jogadas para o alto como peneiras de café. Bobinas de papel atapetavam as ruas do Carmo, Ouvidor, Sete de Setembro e Assembléia. Tudo ia sendo chutado, rasgado, demolido e, em alguns casos, incendiado. Trazidos não se sabe de onde, galões de gasolina apareceram magicamente e edições inteiras viraram fogueira. Foram invadidos “Crítica”, “A Noite”, o “Jornal do Brasil”, “O País, “A Notícia”, “Vanguarda” e a “Gazeta de Notícias” (CASTRO, 1992, p. 105-106).


 A família de Nelson depois desse acontecimento passou por uma grave crise financeira, por muito tempo procuraram juntamente com seus irmãos por emprego, principalmente nos jornais “mas por medo de desagradar os novos donos do poder” (CASTRO, 1992, p. 109) encontravam dificuldades. Em 1931, Nelson começa a trabalhar em “O Globo”, tendo sua carteira assinada somente em 1932. Em 1934 já estava com os primeiros sintomas da tuberculose, “começou com tosse seca e uma febre, baixa mais persistente, todas as tardinhas. Nelson estava muito magro” (CASTRO, 1992, p. 125).
Já na maturidade Nelson abandona o Globo passando a atuar nos Diário dos Associados, especificadamente em “O Jornal”, produzindo o seu primeiro folhetim “Meu Destino é Pecar” usava um pseudônimo “Susana Flag” que aumentou significadamente a circulação do jornal, foi assim que “O Jornal estava dobrando sucessivamente, de três para seis mil, daí para doze mil e, no apogeu de “Meu destino é pecar”, menos de quatro meses depois, chegara a quase trinta mil exemplares” (CASTRO, 1992, p. 186).
Depois do estrondoso sucesso, começou outro folhetim “Escravas do Amor” que obteve a mesma repercussão do anterior. Já então escrevendo peças Nelson se aventura pelo teatro, “estava com a cabeça definitivamente no teatro, mas precisava continuar escrevendo folhetins para sustentar-se” (CASTRO, 1992, p. 219).
A sua grande projeção se deu em 1951, “Nelson decolou do fundo do poço para o que seria um salto mortal em sua vida: “Última Hora” – e “A vida como ela é...”” (CASTRO, 1992, p. 228).
O convite para compor uma seção do jornal veio de Samuel Wainer (1910-1980) que lhe sugeriu escrever sobre fatos relacionados à realidade “a coluna poderia se chamar “Atire a primeira pedra”. Nelson aceitou mais que depressa, mas sugeriu outro título, “A vida como ela é...” – com reticências” (CASTRO, 1992, p. 236). De inicio se adaptava aos temas impostos pela redação do jornal, mas logo depois “começou a inventar ele próprio às histórias. Samuel Wainer levou uma semana para descobrir e, quando descobriu, era tarde: “A vida como ela é...” já incendiara a cidade” (CASTRO, 1992, p.236).
Nunca ate então um jornal carioca apresentou de forma tão real os habitantes da cidade, os espaços “tendo como cenários a Zona Norte, onde eles viviam; o Centro, onde eles trabalhavam; e, esporadicamente, a Zona Sul, onde só iam para prevaricar” (CASTRO, 1992, p. 237). O Rio de Janeiro de Nelson Rodrigues da década de 1950,
[...] não haviam motéis, nem pílula e nem a atual liberdade absoluta entre os jovens. A Zona Norte, quase sem comunicação com a paradisíaca e permissiva Zona Sul, ainda preservava valores contemporâneos da “Espanhola”. As famílias eram rigorosas e, o que é pior, muito mais famílias moravam juntas do que hoje. Maridos, cunhadas, sogras, tias e primas cruzavam-se dia e noite nos corredores dos casarões, sob uma capa de máximo respeito. Nessa convivência compulsória e sufocante, o desejo era apenas uma faísca inevitável (CASTRO, 1992, p. 237).

A forma como a escrita de Nelson se adaptou a realidade é de fato um dado surpreendente, pela maneira de incitar a leitura das pessoas e curiosidade e expectativa pela próxima história a ser produzida. O universo do texto estava carregado da mais densa sensibilidade coletiva, do cotidiano dos leitores, de suas vivências causa do sucesso que a coluna resultou na cidade. A sexualidade latente que tomavam seus personagens ocasionou as mais diversas recepções e imagens, como a de devasso e tarado, o que se pretendia era “esculpir o personagem de si próprio” (CASTRO, 1992, p. 242).
Cabe destacar a importância do jornal Última Hora para o processo de modernização da imprensa brasileira a partir da década de 1950, criado a partir da amizade firmada entre Samuel Wainer e Getúlio Vargas. Depois de sua posse como presidente da república percebe-se a ausência de um jornal que cobrisse as noticias de seu governo. Em meio a essa inexistência de propaganda, surge a Última Hora, um jornal dedicado a apresentar notícias endereçadas ao governo, como canal direto com a população.
   A trajetória jornalística de Samuel Wainer e sua história na vida pública dentro da imprensa carioca é um dos mais importantes e decisivos acontecimentos do jornalismo do país, principalmente durante a metade do século XX, além de sua participação em assuntos de natureza internacional.
Seu consequente sucesso profissional está, em grande parte, nas alianças estabelecidas entre os governos e as elites políticas do país. O envolvimento de Wainer com os assuntos relativos à esfera política rendeu grande notoriedade a sua pessoa e “áurea” de jornalista sempre presente nas esferas de poder. Seu reconhecimento deu-se pelo tom sempre polêmico, adjetivo com que passou a ser enfatizado e lembrado pela posteridade. Podemos dizer que “sua importância aparece auto justificada pelo teor de suas declarações sobre os bastidores da política brasileira, nos períodos autoritário quanto democrático” (ROUCHOU, 2006, p. 346).
 Sua biografia legou as mais diversificadas facetas; estrangeiro, judeu, nacionalista, até mesmo chamado de comunista, dono de jornal, jornalista e, sempre intimamente ligado ao poder público durante três décadas. Isto o imortalizou como sendo o primeiro jornalista brasileiro a compor um jornal de natureza inovadora, ao mesmo tempo moderna e acima de tudo escrito e dirigido por um próprio jornalista.
Wainer, em seu percurso no Brasil, lutou, de maneira pertinente, em relação aos problemas advindos de sua identidade. Sua origem, de família judia, estava na Bessarábia, na religião judaica, mas o que fica expresso sempre em suas memórias é o fato de nunca ter deixado de posicionar-se diante de sua verdadeira identidade, sempre “mal construída”, em relação a seus três filhos. Nesse impasse, Lacerda iniciou, em 1953, uma feroz campanha tentando, de todas as formas, provar a nacionalidade de Wainer, pois, de acordo com as leis brasileiras, um estrangeiro não poderia praticar a atividade jornalística no Brasil.
Logo este traço étnico se fez presente em toda a sua vida, como fica expresso desde o início de sua carreira ao lado de Vargas:
Da entrevista com Vargas com alusão a sua origem (o profeta Samuel) ás reuniões de empresários ou coberturas, à condição judaica se fez presente. Uma passagem que me chamou a atenção foi a determinação de cobrir os julgamentos de Nuremberg. É possível, em sua trajetória, perceber variações relevantes em suas atitudes quanto a essa celebrada “condição judaica”. Ela nem sempre foi celebrada, nem tão assumida e aberta (ROUCHOU, 2006, p.354).

Imigrante, nascido de pais pobres, essencialmente judeus, que vieram a morar no bairro de Bom Retiro, em São Paulo. Seu começo na carreira jornalística deu-se num jornal dirigido à comunidade judaica, conhecendo, aos poucos, o universo da imprensa. Logo criou a revista Diretrizes, em 1938, de caráter marcadamente comunista, mais basicamente antifacista. Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a revista se encerrava e Samuel Wainer viajou aos Estados Unidos e depois Europa como correspondente de jornais cariocas. Em 1945, conseguiu cobrir o Tribunal de Nuremberg, sendo, assim, o único jornalista brasileiro a cobrir tal relevante acontecimento. De volta ao Brasil, em 1947, como repórter famoso e de muito prestígio, ingressou no Diário dos Associados, de Assis Chateubriand. 
Mas o momento chave em sua profissão de jornalista foi em 1947, quando Wainer encontrou sua grande oportunidade. Esta veio com o intuito de produzir uma reportagem acerca da questão do trigo, quando decidiu entrevistar Getúlio Vargas. O então ex-presidente revelou, em primeira mão, que voltaria para a vida política. Assim “começava a união entre os dois que resultou na eleição de Vargas e na criação do jornal Última Hora, dado pelo recém-eleito presidente Vargas a Samuel Wainer em 1952” (ROUCHOU, 2006, p. 352).
Logo, em 31 de janeiro de 1951, Getúlio Vargas tomou posse como presidente da República do Brasil, reuniu seu ministério e advogou pelo fato de não existir um jornal para cobrir os acontecimentos de seu governo e que afastasse a “conspiração do silêncio que a imprensa lhe impusera” (BARBOSA, 2007, p. 170). No decorrer dos acontecimentos Samuel Wainer foi convidado para um jantar com a família de Vargas, surgindo a ideia de criar o novo jornal.
A partir dessa grande amizade passou a exercer grande influência perante Vargas, “quase um conselheiro”, um “emissário”. Sua posição no nascente jornal o colocou diante de um papel privilegiado, o qual, até então, nenhum outro jornalista alcançara em sua época. Sua passagem de repórter do Diário dos Associados para dono do jornal Última Hora foi tomada de grande surpresa, como comentou em entrevista:
Quando retornei da Europa o Assis Chateaubriand me convidou para os "Associados", em julho de 1947. Aceitei. Primeiro porque eu queria conhecer por dentro uma grande empresa, o ventre de uma grande empresa. Porque ele me pagou um salário excelente pra época. Eram 20 contos, equivalia hoje a 200 mil cruzeiros, quebrou todos os padrões. Ele sabia, ele tinha um instinto, ele já tinha lido coisas minhas. Aí entrei nos "Diários Associados" onde eu vi por dentro o chamado grande jornalismo. Fui editor nos "Diários Associados", fui secretário de redação, redator, colunista, mas principalmente repórter. Foi quando descobri Getúlio [...] Dessa amizade com Getúlio nasceu a "Última Hora" (WAINER, 1979, p. 5-6).

Samuel Wainer aproveitou do momento político para garantir o sucesso das notícias publicadas no jornal. Para ele nada mais era interessante do que a própria imagem de Getúlio Vargas. Criou duas empresas: uma gráfica, a Érica, e a outra editorial, a Editora Última Hora. Para ajudar na viabilização da gráfica contou com os empréstimos do banqueiro Walter Moreira Salles e com o presidente do Banco do Brasil, Ricardo Jafet, além de EuvaldoLodi, empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria, dentre outros como a Caixa Econômica Federal e o Banco Hipotecário do Crédito Real, através de Juscelino Kubischeck. Por isso,
Portanto a "Última Hora" não foi criada acidentalmente, ela ia sendo criada à medida que a gente criava novos quadros e novas ideias. Eu senti que a popularidade de Getúlio me dava uma comunicação com todas as camadas sociais e a linha nacionalista me dava comunicação com a camada dirigente do novo empresariado brasileiro. Então, a "Última Hora" foi, realmente, um produto de uma imensa vivência jornalística e política (WAINER, 1979, p. 6).

Esse veículo de comunicação de marca partidária levava consigo de roldão uma série de inovações nas maneiras de conceber o jornal a partir da década de 1950. Novos ventos começaram a soprar na modernização de nossa estrutura jornalística, pela influência do modelo norte-americano que traziam consigo elementos como a objetividade a neutralidade frente aos fatos do cotidiano. As reformas foram introduzidas por Samuel Wainer, não é a toa que seu jornal se tornou um grande “divisor de águas” na tentativa de se incorporar uma maior profissionalização e aperfeiçoamento das técnicas implantadas na produção do jornal. O jornalismo até então, era o lugar predileto dos literatos que usavam desse instrumento para divulgar as suas produções, mas foi assim que:
Na década de 1950, isto começou a mudar, principalmente no Rio de Janeiro, onde o jornalismo empresarial foi pouco a pouco substituindo o político-literário. A imprensa foi abandonando a tradição de polêmica, de crítica e de doutrina, substituindo-a por um jornalismo que privilegiava a informação (transmitida "objetiva" e "imparcialmente" na forma de notícia) e que a separava (editorial e graficamente) do comentário pessoal e da opinião (RIBEIRO, 2003, p. 148).

A história do nosso jornalismo se configurava como uma mescla com a literatura, não havia pretensões de compor os fatos tais como se passaram de um jornalismo tradicional, literário, incipiente, passávamos assim para um jornalismo industrial, produzido para as grandes massas. Devido a uma própria demanda da modernização das cidades o público leitor queria uma linguagem mais adequada e isenta de qualquer intenção por parte daquele que escreviam:
[...] uma demanda por rapidez, tanto na instância da produção quanto na do seu consumo. O ritmo cada vez mais acelerado da vida moderna exigia adaptações para tornar os jornais veículos dinâmicos para as notícias e para a propaganda (RIBEIRO, 2003, p. 150).

Contribuíram também para a modernização e profissionalização da informação o fato de alguns jornais realizarem altos pagamentos salariais, acima da média (como foi o caso do Última Hora), e também pela criação do ensino superior de jornalismo, criado pelo decreto n° 5.480, de 13 de maio de 1943 por Getúlio Vargas. A implantação do curso de jornalismo no Brasil se deu inicialmente na Universidade do Brasil (1948) e posteriormente na Pontifícia Universidade Católica (1951). O quadro geral dessa revolução no campo da comunicação ocorreu de forma ampla e intensa, o mercado se estruturou em novas bases promovendo a disseminação pelo país.
A maioria dessas mudanças - redacionais, editoriais, gráficas, empresariais e profissionais - não foi introduzida no jornalismo carioca de maneira gradual e espontânea. Apesar de já virem sendo gestadas há muito tempo, só conseguiram se impor através de um processo consciente de reformulação, levado a cabo de forma pioneira por algumas empresas jornalísticas e por alguns profissionais (RIBEIRO, 2003, p. 153)

Os jornais pioneiros nesse vulto de novos empreendimentos foram o Diário Carioca, a Tribuna da Imprensa, a Última Hora e o Jornal do Brasil. Nota-se que esses jornais estão alinhados com o campo político, influenciando as notícias e o modo de se fazer jornalismo na época.
Defendo, no entanto, a hipótese de que o aspecto político jamais desapareceu totalmente, exercendo um papel fundamental - estrutural – na dinâmica das empresas jornalísticas. Apesar de se terem afirmado imperativos de gestão e de administração, estes ainda não eram suficientes para garantir a autonomia das empresas. Por isso, os jornais jamais deixaram de cumprir um papel nitidamente político. O apoio a determinados grupos que estavam no poder ou na oposição (dependendo da conjuntura) era essencial para garantir a sobrevivência de algumas empresas, fosse através de créditos, empréstimos, incentivos ou mesmo publicidade (RIBEIRO, 2003, p. 156).

A década de 1950 permitiu esse desenvolvimento no tocante à industrialização do país, principalmente, do setor industrial e concomitantemente do gasto com publicidade faz-se acompanhar esse caminho. 
Nelson Rodrigues se encontrava no olho do furacão, e nele encontramos o discurso da contradição da linguagem literária, com o texto jornalístico, na essência da comunicação, esses dois campos se entrelaçam com empréstimos recíprocos, muito pela dimensão da linguagem que permeia essa relação. Foi nesse ritmo que Nelson conheceu o Última Hora e
Em sua casa nova, iria promover uma revolução na imprensa brasileira, adotando a técnica americana de uniformizar os textos e implantando a novidade do “copy-desk” – redator encarregado de escoimar as matérias de verbos como, por exemplo, escoimar. Ninguém mais podia ser literato na redação, a não ser em textos assinados e olhe lá [...] Nelson passional como uma viúva italiana, achava aquilo como um empobrecimento da noticia e passou a considerar os “copy-desks” os “idiotas da objetividade” (CASTRO, 1992, p. 231).

Nelson era, portanto um idealizador de outra concepção de jornal, mais identificado com as liberdades de escrita, com o emprego da subjetividade, herança do jornalismo praticado pela sua família.
Sou da imprensa anterior ao copy desk. Tinha treze anos quando me iniciei no jornal, como repórter de policia. Na redação não havia nada de aridez atual e pelo contrário: - era uma cova de delícias [...] De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na redação, seja repórter do setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade estilística. E o copy desk não respeitava ninguém (RODRIGUES, 1995).

Em 1955, a família de Nelson obteve ganho favorável pelo empastelamento de “Crítica” depois de vinte quatro anos depois da destruição do jornal. Depois de passar pela televisão como comentarista esportivo na TV Rio com a famosa “Resenha Facit”, e recebido pelo Correio da Manhã para começar a escrever suas “Memórias”, o que impressionava era seu vasto currículo e experiência na área.
Fizera parte dos jornais e revistas no berço, na plenitude e na morte. Atravessara todas as revoluções gráficas, estilísticas e empresariais da imprensa naquele período e, nem que fosse como coadjuvante, acompanhara de perto todas as transformações politicas do Brasil. Numa delas, a de 1930, tinha sido até vitima [...] E, de fato, só o currículo profissional de Nelson já impressionara. Fizera reportagem da polícia, futebol, crítica, crônica, conto, folhetim, até mesmo consultório sentimental. Escrevera com seu nome, com pseudônimos e com o nome dos outros. A lista dos jornais e revistas importantes pelos quais passara dava água na boca: “A Manhã”, “Crítica”, “O Globo” (três vezes), “O Cruzeiro”, “O Jornal”, “Diário da Noite” (duas vezes), Última Hora”, e “Manchete”, fora os jornais e revistas menores – e mais o “Jornal dos Sports” do qual era uma espécie de móveis e utensílios de que ninguém se dava conta” (CASTRO, 1992, p. 354).

 Nelson é um homem que foi forjado dentro do jornal, sua vida se confunde com uma parte da história da imprensa brasileira, desde cedo sua experiência como jornalista do cotidiano, lhe deu a habilidade em compor com tamanha realidade as relações sociais entre homens e mulheres na década de 1950 em sua coluna A vida como ela é..., em um período de mudanças comportamentais e tecnológicas, o escritor reproduz as tensões de sua época por meio de suas representações sociais.
Grande parte de sua obra foi construída nas páginas do jornal, no diálogo com os leitores, no tratamento da linguagem das ruas, de seus tipos sociais e ambientes de convívio. Nada se compara a seu nível de realidade, a sua forma de retratar o homem e seus dilemas frente à modernidade. Num tom sempre crítico e inovador Nelson rompe com o moralismo estagnado e com a hipocrisia social e apresenta o homem com intensa verdade, caracterizado segundo sua própria natureza.
O cotidiano retratado em sua coluna jornalística instaura o começo incipiente de uma onda de liberdade, de inversão dos papéis sociais, no que se refere o que é ser homem, é o que é ser mulher na metade do século XX. Nelson quebra em sua coluna o quadro social imposto pela época, onde a mulher cada vez mais ampliava a sua participação no mercado de trabalho e nos índices de escolaridade.
As mulheres estão representadas como dominadoras, sentem desejos por outros homens que não são seus maridos, fragilizando a honra do masculino e consequentemente a sua capacidade de impor seu domínio no campo da vida privada. O tempo da coluna é outro que a sociedade da época não quer reconhecer, por isso do impacto de suas representações para o período, que ainda detinha fortes discursos em torno da sexualidade e do casamento.
Em um momento de intensas mudanças em variadas esferas da vida, a área da imprensa não ficou de fora, o jornalismo tradicional-literário de Nelson estava sendo severamente ameaçado, o estilo de escrita rebuscada, com intensa marca pessoal do escritor, lentamente foi sendo esquecida pela prática direta e sem rodeios da nova notícia. E a narrativa rodriguiana se assentava sobre essa perspectiva entre realidade e ficção, jornalismo e literatura. Hoje:
Percebemos que o jornalismo feito por Nelson Rodrigues é totalmente oposto ao que hoje chamamos de jornalismo convencional. Longe da objetividade e do texto mecânico e engessado, o texto rodriguiano é despojado e subjetivo. A experiência como repórter policial e a elaboração de matérias designadas à seção de polícia, todos influenciaram as formas literárias do autor. Os mesmos temas – amor, adultério e morte – são acrescidos de elementos originários desta experiência de jornalista e, articulados, constituem partes fundamentais do universo rodriguiano (SALES, 2011, p. 329).

 
Seu texto abarcava duas características fundamentais, a realidade e a ficção, duas faces da sua estética textual, a capacidade de retratar acontecimentos do cotidiano, filho de pai jornalista, legou as habilidades que o tornaram um grande jornalista do seu tempo onde “a ficção era uma tradição da família, e ele a levou a sério” (CLARK, 2002, p. 2). Por onde passou alavancou as vendas dos jornais implantaram o desejo de leitura e mortalizou personagens inesquecíveis no ambiente das redações dos jornais.
A conjuntura da década de 1950 reformou de forma atuante o que sabemos e entendemos de jornalismo nos dias de hoje, eliminou situações convencionais e pessoais de quem os escreviam e permitiu um maior alcance dos impressos na sociedade garantindo o acesso a uma informação rápida e objetiva e de massa.
A separação de jornalismo e literatura se efetivou na década de 50, essa associação não mais seria praticada e relegada ao segundo plano. Nelson combateu veementemente essa nova postura devido a sua atuação herdada de sua família, e que perdia cada vez mais espaço pelos novos jornalistas da época.
Nelson foi um intelectual engajado nas questões do seu tempo, seu discurso crítico as reformas na escrita e renovações no campo do texto jornalístico, lhe rendeu a sua imagem para a posteridade na compreensão da historicidade das relações tecidas entre literatura e jornalismo na década de 1950.

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Marialva. “Cinqüenta Anos em Cinco”: consolidando o mito da modernização. In: _____. História Cultural da Imprensa: Brasil, 1990 – 2000. Rio de Janeiro: Maud X, 2007.
CASTRO, Ruy. O Anjo Pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Cia das Letras, 1992.
CLARK, Linda. Nelson Rodrigues: jornalismo e literatura na dose certa. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 17, p. 3-11, jan. /fev. 2002. Disponível em: <www.gelbc.com.br/pdf_revista/1701.PDF.> Acesso em: 15 abr. 2012.
RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Jornalismo, literatura e política: a modernização da imprensa carioca nos anos 1950. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº. 31, 2003, p. 147·160.
RODRIGUES, Nelson. A Vida Como Ela é: o homem fiel e outros. Seleção Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
­­­­­­­­­______.  A Cabra Vadia. Seleção de Ruy Castro. São Paulo. Companhia das Letras, 1995.
ROUCHOU, Jöelle. Samuel Wainer: memórias entre jornalismo e política. In:_____. NEVES, Maria Bastos P.; MOREL, Marco; FERREIRA, Tânia Maria Bessone da C. (orgs). História e Imprensa: representações culturais e práticas de poder. Rio de Janeiro: DP & A: FAPER, 2006.  p.346-362.
SALES, Esdra Marchezan. Narrativas convergentes: ficção e realidade na prosa de Nelson Rodrigues. Estudos em Jornalismo e Mídia, Florianópolis, v. 8, n. 2, jul. dez. 2011. Disponível em: <http:/www.periodicos.ufsc.br/index.php/jornalismo/article/view/1984-6924.2011v8n2p323>. Acesso em: 15 ab. 2012.
WAINER, Samuel. Por que Café Filho traiu Getúlio. Jornalistas contam a História - 10. Depoimento de Samuel Wainer ao repórter Wianey Pinheiro. Folha de São Paulo, São Paulo, domingo, 14 jan. 1979.
XAVIER, Rodrigues Alexandre de Carvalho. O Rio Como ele é: Nelson Rodrigues: sensação e percepção. Rio de Janeiro. Disponível em: <http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/Busca_etds.php?strSecao=resultado&nrSeq=6710@1>. Acesso em: 10 de nov. 2011.
ZECHILINSKI, Beatriz. Polidori. “A vida como ela é...”; imagens do casamento e do amor em Nelson Rodrigues. Cadernos Pagu, v. 29, p. 399-428, jul. dez. 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-83332007000200016&script=sci_arttext>. Acesso em: 11 de nov. 2011.




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