Leandro Antonio dos Santos¹
Resumo: Este texto tem por
objetivos entender a narrativa de Nelson Rodrigues no período dos Anos Dourados
tendo como suporte a obra “A vida como ela é...”, e a influência de sua
imagem e concepção estética como jornalista em sua coluna diária. Nelson esteve
inserido por meio de sua escrita nas tensões de sua época é revela pelos seus
tipos sociais da sociedade carioca em transformação, a transgressão, num contexto
de mudanças comportamentais, sua contribuição e altamente relevante para o
entendimento da família brasileira, principalmente nas imagens de feminino e
masculino. Intenta-se também destacar a sua maneira de conceber o jornal, de
seu processo de escritura, nas fronteiras da realidade e a ficção, e de sua
vivência social emanada das ruas, espaço de onde tanto fala. A Nova História
Cultural evidencia abordagens situadas no campo do cotidiano, nas relações de
gênero, na família e na imprensa como meio de compreensão da realidade vivida,
estas serão centrais na discussão proposta. Tentaremos elucidar as
representações sociais construídas por um escritor afinado com o seu tempo e as
práticas sociais que esses comportamentos ocasionavam. Observaremos ainda as
mudanças pelas quais a imprensa carioca passava e as críticas de Nelson
Rodrigues à este processo modernizador.
Palavras-Chave: Nelson Rodrigues; jornalismo; Anos Dourados.
Na tentativa de elucidar as
representações sociais produzidas por Nelson Rodrigues (1912-1980) no ambiente
do jornal, está a sua capacidade de criação e reprodução da realidade por meio
da coluna A vida como ela é..., esta
serviu como caixa de ressonância da sociedade no período de transformações politicas-estruturais,
culturais, tecnológicas, denominado de Anos Dourados.
Nelson recebeu a vocação jornalística do pai, Mário Rodrigues, que desde
cedo, já adolescente tomou contato com o universo composto por notícias e fatos
relacionados à coletividade urbana, aqui fluminense, local de onde partem as
suas impressões do homem que forja sua experiência nas relações sociais
construídas na cidade e no que ela tem de novo e liberalizante em relação aos
costumes vigentes.
__________________________
¹ Graduado em História pela
Universidade Federal de Goiás. Email: leandrosantoshis@gmail. com
Nelson Rodrigues revelou sua potencialidade de escrita por meio de
jornais, no contato direto com a sensibilidade coletiva, emitindo
representações sociais e deixando uma marca no imaginário popular, colocando na
ordem do dia tipos sociais das ruas, inquietações vividas por pessoas comuns,
dramas localizados, sentidos e compartilhados pela sociedade da década de 1950.
Segundo Xavier (2011) sua vida enquanto escritor de situações diárias do
cotidiano esta ligada a sua maneira peculiar de associar sensação é percepção
do mundo a sua volta, que lhe aparece por meio de conflitos, tensões e
dilaceramentos em torno das relações humanas e familiares que se apresentam
como catalizadoras das reações mais diversas em seus textos e na sociedade que
se inteirava deles.
O homem aparece em descompasso com
o que lhe aparenta ser o certo e o correto. O modelo a ser seguido e vigiado
não é mais hegemônico e natural. Mudam-se as regras, alteram-se os papéis, um
novo mundo surge das páginas do jornal, da vida própria do escritor que a
vivencia. Texto e contexto parecem-se entrelaçar-se num jogo dialético de
posições contrárias, mas que se fazem sentido num processo civilizador que
destrói a aparência das coisas, que renova a permanência do tradicionalismo do
que é ser homem e mulher no mundo contemporâneo.
Quando tinha apenas quatorze anos de idade se meteu em calças compridas e
foi trabalhar no jornal do pai, compondo um pequeno jornalzinho que saia junto
com A Manhã, ali o jovem escritor se
metera no ambiente da redação em um “tabloide de quatro páginas [...] era uma
espécie de “A Manhã” de calças curtas, embora Nelson já tivesse deixado de
usá-las. Ele queria ser como seu pai, um espadachim verbal” (CASTRO, 1992,
p.60).
Sua vida daí em diante passa a se confundir com os folhetins. Nesse
momento de contato inicial de uma viagem duradoura de toda uma vida ele se mostrava
em seus textos com “petulância de adolescente” com ataques pessoais, onde foi
que:
Logo no primeiro número do tabloide desencadeou um
ataque sem tamanho com o padre Félix Barreto, diretor do Ginásio do Recife,
acusando-o de ter torturado seu primo Augusto, aluno do ginásio, a mando do
governador Sérgio Loreto. “É inútil dizer que o padre Félix Barreto é um farrapo
humano desprezível”, bramava Nelson no artigo, “um reles bandido, um pobre
louco cujo cérebro a sífilis comeu e cuja lama é lavada durante duzentas vezes
na latrina”. Em outro trecho, taxava o pio padre Félix, futuro nome do colégio
no Recife, de “celebre violador de pretas” (CASTRO, 1992, p. 60).
O jornal que Nelson começará a escrever a metade deles foi destinado para
o Recife. Aos poucos na segunda edição do jornal deixava de lado as questões
pernambucanas
mas pedia o fechamento da Academia Brasileira de
Letras pela polícia, classificava Epitácio Pessoa de “uma pústula social” e
massacrava por atacado a Escola Nacional de Belas Artes, acusando-a de ser um
antro de “marmanjos imbecis” (CASTRO, 1992, p. 61).
O destino do jornal não reservará a Mário Rodrigues o sucesso desejado,
logo perdeu o controle para seu sócio Antônio Faustino Porto, por motivos de
dívidas que aos poucos foi ganhando espaço nos investimentos do jornal, foi
assim que Porto assumiu o controle da empresa, mas “para Mário Rodrigues,
tornara-se muito fácil abrir outro à hora que quisesse. Afinal, era ou não
amigo do vice-presidente Melo Viana? [...] Mário lançou seu novo jornal e o de
mais escandaloso sucesso: “Crítica”” (CASTRO, 1992, p. 68). Neste novo espaço
Nelson persistiria em torno da pagina de policia, se tornando um grande sucesso
de vendas.
Fato marcante em sua vida, e que marca de maneira a deixar marcas
profundas em sua escrita foi a morte de seu irmão Roberto Rodrigues em 1929,
que desencadeou a morte de Mário, e durante a Revolução de 30 a redação a “Crítica” teve
sua redação empastelada, deixando assim de existir. As:
Redações e oficinas foram invadidas e empasteladas.
Máquinas de escrever eram atiradas na rua, prensas eram destruídas a golpes de
canos de ferro, gavetas inteiras de tipos eram jogadas para o alto como
peneiras de café. Bobinas de papel atapetavam as ruas do Carmo, Ouvidor, Sete
de Setembro e Assembléia. Tudo ia sendo chutado, rasgado, demolido e, em alguns
casos, incendiado. Trazidos não se sabe de onde, galões de gasolina apareceram
magicamente e edições inteiras viraram fogueira. Foram invadidos “Crítica”, “A
Noite”, o “Jornal do Brasil”, “O País, “A Notícia”, “Vanguarda” e a “Gazeta de
Notícias” (CASTRO, 1992, p. 105-106).
A família de Nelson depois desse
acontecimento passou por uma grave crise financeira, por muito tempo procuraram
juntamente com seus irmãos por emprego, principalmente nos jornais “mas por
medo de desagradar os novos donos do poder” (CASTRO, 1992, p. 109) encontravam
dificuldades. Em 1931, Nelson começa a trabalhar em “O Globo”, tendo sua
carteira assinada somente em 1932. Em 1934 já estava com os primeiros sintomas
da tuberculose, “começou com tosse seca e uma febre, baixa mais persistente,
todas as tardinhas. Nelson estava muito magro” (CASTRO, 1992, p. 125).
Já na maturidade Nelson abandona o Globo passando a atuar nos Diário dos
Associados, especificadamente em “O
Jornal”, produzindo o seu primeiro folhetim “Meu Destino é Pecar” usava um
pseudônimo “Susana Flag” que aumentou significadamente a circulação do jornal,
foi assim que “O Jornal estava
dobrando sucessivamente, de três para seis mil, daí para doze mil e, no apogeu
de “Meu destino é pecar”, menos de quatro meses depois, chegara a quase trinta
mil exemplares” (CASTRO, 1992, p. 186).
Depois do estrondoso sucesso, começou outro folhetim “Escravas do Amor”
que obteve a mesma repercussão do anterior. Já então escrevendo peças Nelson se
aventura pelo teatro, “estava com a cabeça definitivamente no teatro, mas
precisava continuar escrevendo folhetins para sustentar-se” (CASTRO, 1992, p.
219).
A sua grande projeção se deu em 1951, “Nelson decolou do fundo do poço
para o que seria um salto mortal em sua vida: “Última Hora” – e “A vida como
ela é...”” (CASTRO, 1992, p. 228).
O convite para compor uma seção do jornal veio de Samuel Wainer
(1910-1980) que lhe sugeriu escrever sobre fatos relacionados à realidade “a
coluna poderia se chamar “Atire a primeira pedra”. Nelson aceitou mais que
depressa, mas sugeriu outro título, “A vida como ela é...” – com reticências”
(CASTRO, 1992, p. 236). De inicio se adaptava aos temas impostos pela redação
do jornal, mas logo depois “começou a inventar ele próprio às histórias. Samuel
Wainer levou uma semana para descobrir e, quando descobriu, era tarde: “A vida
como ela é...” já incendiara a cidade” (CASTRO, 1992, p.236).
Nunca ate então um jornal carioca apresentou de forma tão real os
habitantes da cidade, os espaços “tendo como cenários a Zona Norte, onde eles
viviam; o Centro, onde eles trabalhavam; e, esporadicamente, a Zona Sul, onde
só iam para prevaricar” (CASTRO, 1992, p. 237). O Rio de Janeiro de Nelson
Rodrigues da década de 1950,
[...] não haviam motéis, nem pílula e nem a atual
liberdade absoluta entre os jovens. A Zona Norte, quase sem comunicação com a
paradisíaca e permissiva Zona Sul, ainda preservava valores contemporâneos da
“Espanhola”. As famílias eram rigorosas e, o que é pior, muito mais famílias
moravam juntas do que hoje. Maridos, cunhadas, sogras, tias e primas
cruzavam-se dia e noite nos corredores dos casarões, sob uma capa de máximo
respeito. Nessa convivência compulsória e sufocante, o desejo era apenas uma
faísca inevitável (CASTRO, 1992, p. 237).
A forma como a escrita de Nelson se adaptou a realidade é de fato um dado
surpreendente, pela maneira de incitar a leitura das pessoas e curiosidade e
expectativa pela próxima história a ser produzida. O universo do texto estava
carregado da mais densa sensibilidade coletiva, do cotidiano dos leitores, de
suas vivências causa do sucesso que a coluna resultou na cidade. A sexualidade
latente que tomavam seus personagens ocasionou as mais diversas recepções e
imagens, como a de devasso e tarado, o que se pretendia era “esculpir o
personagem de si próprio” (CASTRO, 1992, p. 242).
Cabe destacar a importância do jornal Última
Hora para o processo de modernização da imprensa brasileira a partir da
década de 1950, criado a partir da amizade firmada entre Samuel Wainer e
Getúlio Vargas. Depois de sua posse como presidente da república percebe-se a
ausência de um jornal que cobrisse as noticias de seu governo. Em meio a essa
inexistência de propaganda, surge a Última Hora, um jornal dedicado a
apresentar notícias endereçadas ao governo, como canal direto com a população.
A trajetória jornalística de
Samuel Wainer e sua história na vida pública dentro da imprensa carioca é um
dos mais importantes e decisivos acontecimentos do jornalismo do país,
principalmente durante a metade do século XX, além de sua participação em
assuntos de natureza internacional.
Seu consequente sucesso profissional está, em grande parte, nas alianças
estabelecidas entre os governos e as elites políticas do país. O envolvimento
de Wainer com os assuntos relativos à esfera política rendeu grande notoriedade
a sua pessoa e “áurea” de jornalista sempre presente nas esferas de poder. Seu
reconhecimento deu-se pelo tom sempre polêmico, adjetivo com que passou a ser
enfatizado e lembrado pela posteridade. Podemos dizer que “sua importância
aparece auto justificada pelo teor de suas declarações sobre os bastidores da
política brasileira, nos períodos autoritário quanto democrático” (ROUCHOU,
2006, p. 346).
Sua biografia legou as mais
diversificadas facetas; estrangeiro, judeu, nacionalista, até mesmo chamado de
comunista, dono de jornal, jornalista e, sempre intimamente ligado ao poder
público durante três décadas. Isto o imortalizou como sendo o primeiro
jornalista brasileiro a compor um jornal de natureza inovadora, ao mesmo tempo
moderna e acima de tudo escrito e dirigido por um próprio jornalista.
Wainer, em seu percurso no Brasil, lutou, de maneira pertinente, em
relação aos problemas advindos de sua identidade. Sua origem, de família judia,
estava na Bessarábia, na religião judaica, mas o que fica expresso sempre em
suas memórias é o fato de nunca ter deixado de posicionar-se diante de sua
verdadeira identidade, sempre “mal construída”, em relação a seus três filhos.
Nesse impasse, Lacerda iniciou, em 1953, uma feroz campanha tentando, de todas
as formas, provar a nacionalidade de Wainer, pois, de acordo com as leis
brasileiras, um estrangeiro não poderia praticar a atividade jornalística no
Brasil.
Logo este traço étnico se fez presente em toda a sua vida, como fica
expresso desde o início de sua carreira ao lado de Vargas:
Da entrevista com Vargas com alusão a sua origem (o profeta Samuel) ás reuniões de
empresários ou coberturas, à condição judaica se fez presente. Uma passagem que
me chamou a atenção foi a determinação de cobrir os julgamentos de Nuremberg. É
possível, em sua trajetória, perceber variações relevantes em suas atitudes
quanto a essa celebrada “condição judaica”. Ela nem sempre foi celebrada, nem
tão assumida e aberta (ROUCHOU, 2006, p.354).
Imigrante, nascido de pais pobres, essencialmente judeus, que vieram a
morar no bairro de Bom Retiro, em São Paulo. Seu começo na carreira
jornalística deu-se num jornal dirigido à comunidade judaica, conhecendo, aos
poucos, o universo da imprensa. Logo criou a revista Diretrizes, em 1938, de caráter marcadamente comunista, mais
basicamente antifacista. Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a
revista se encerrava e Samuel Wainer viajou aos Estados Unidos e depois Europa
como correspondente de jornais cariocas. Em 1945, conseguiu cobrir o Tribunal
de Nuremberg, sendo, assim, o único jornalista brasileiro a cobrir tal
relevante acontecimento. De volta ao Brasil, em 1947, como repórter famoso e de
muito prestígio, ingressou no Diário dos
Associados, de Assis Chateubriand.
Mas o momento chave em sua profissão de jornalista foi em 1947, quando
Wainer encontrou sua grande oportunidade. Esta veio com o intuito de produzir
uma reportagem acerca da questão do trigo, quando decidiu entrevistar Getúlio
Vargas. O então ex-presidente revelou, em primeira mão, que voltaria para a
vida política. Assim “começava a união entre os dois que resultou na eleição de
Vargas e na criação do jornal Última Hora,
dado pelo recém-eleito presidente Vargas a Samuel Wainer em 1952” (ROUCHOU, 2006, p. 352).
Logo, em 31 de janeiro de 1951, Getúlio Vargas tomou posse como
presidente da República do Brasil, reuniu seu ministério e advogou pelo fato de
não existir um jornal para cobrir os acontecimentos de seu governo e que
afastasse a “conspiração do silêncio que a imprensa lhe impusera” (BARBOSA, 2007,
p. 170). No decorrer dos acontecimentos Samuel Wainer foi convidado para um
jantar com a família de Vargas, surgindo a ideia de criar o novo jornal.
A partir dessa grande amizade passou a exercer grande influência perante
Vargas, “quase um conselheiro”, um “emissário”. Sua posição no nascente jornal
o colocou diante de um papel privilegiado, o qual, até então, nenhum outro
jornalista alcançara em sua época. Sua passagem de repórter do Diário dos Associados para dono do
jornal Última Hora foi tomada de grande
surpresa, como comentou em entrevista:
Quando retornei da Europa o Assis Chateaubriand me
convidou para os "Associados", em julho de 1947. Aceitei. Primeiro
porque eu queria conhecer por dentro uma grande empresa, o ventre de uma grande
empresa. Porque ele me pagou um salário excelente pra época. Eram 20 contos,
equivalia hoje a 200 mil cruzeiros, quebrou todos os padrões. Ele sabia, ele
tinha um instinto, ele já tinha lido coisas minhas. Aí entrei nos "Diários
Associados" onde eu vi por dentro o chamado grande jornalismo. Fui editor
nos "Diários Associados", fui secretário de redação, redator,
colunista, mas principalmente repórter. Foi quando descobri Getúlio [...] Dessa
amizade com Getúlio nasceu a "Última Hora" (WAINER, 1979, p. 5-6).
Samuel Wainer aproveitou do momento político para garantir o sucesso das
notícias publicadas no jornal. Para ele nada mais era interessante do que a
própria imagem de Getúlio Vargas. Criou duas empresas: uma gráfica, a Érica, e a outra editorial, a Editora
Última Hora. Para ajudar na viabilização da gráfica contou com os empréstimos
do banqueiro Walter Moreira Salles e com o presidente do Banco do Brasil,
Ricardo Jafet, além de EuvaldoLodi, empresário e presidente da Confederação
Nacional da Indústria, dentre outros como a Caixa Econômica Federal e o Banco
Hipotecário do Crédito Real, através de Juscelino Kubischeck. Por isso,
Portanto a "Última Hora" não foi criada
acidentalmente, ela ia sendo criada à medida que a gente criava novos quadros e
novas ideias. Eu senti que a popularidade de Getúlio me dava uma comunicação
com todas as camadas sociais e a linha nacionalista me dava comunicação com a
camada dirigente do novo empresariado brasileiro. Então, a "Última
Hora" foi, realmente, um produto de uma imensa vivência jornalística e
política (WAINER, 1979, p. 6).
Esse veículo de comunicação de marca partidária levava consigo de roldão
uma série de inovações nas maneiras de conceber o jornal a partir da década de
1950. Novos ventos começaram a soprar na modernização de nossa estrutura
jornalística, pela influência do modelo norte-americano que traziam consigo
elementos como a objetividade a neutralidade frente aos fatos do cotidiano. As
reformas foram introduzidas por Samuel Wainer, não é a toa que seu jornal se
tornou um grande “divisor de águas” na tentativa de se incorporar uma maior
profissionalização e aperfeiçoamento das técnicas implantadas na produção do
jornal. O jornalismo até então, era o lugar predileto dos literatos que usavam
desse instrumento para divulgar as suas produções, mas foi assim que:
Na década de 1950,
isto começou a mudar, principalmente no Rio de Janeiro, onde o jornalismo
empresarial foi pouco a pouco substituindo o político-literário. A imprensa foi
abandonando a tradição de polêmica, de crítica e de doutrina, substituindo-a
por um jornalismo que privilegiava a informação (transmitida
"objetiva" e "imparcialmente" na forma de notícia) e que a
separava (editorial e graficamente) do comentário pessoal e da opinião
(RIBEIRO, 2003, p. 148).
A história do nosso jornalismo se configurava como uma mescla com a
literatura, não havia pretensões de compor os fatos tais como se passaram de um
jornalismo tradicional, literário, incipiente, passávamos assim para um
jornalismo industrial, produzido para as grandes massas. Devido a uma própria
demanda da modernização das cidades o público leitor queria uma linguagem mais
adequada e isenta de qualquer intenção por parte daquele que escreviam:
[...] uma demanda por
rapidez, tanto na instância da produção quanto na do seu consumo. O ritmo cada
vez mais acelerado da vida moderna exigia adaptações para tornar os jornais
veículos dinâmicos para as notícias e para a propaganda (RIBEIRO, 2003, p.
150).
Contribuíram também para a modernização e profissionalização da informação
o fato de alguns jornais realizarem altos pagamentos salariais, acima da média
(como foi o caso do Última Hora), e também pela criação do ensino superior de
jornalismo, criado pelo decreto n° 5.480, de 13 de maio de 1943 por Getúlio
Vargas. A implantação do curso de jornalismo no Brasil se deu inicialmente na
Universidade do Brasil (1948) e posteriormente na Pontifícia Universidade
Católica (1951). O quadro geral dessa revolução no campo da comunicação ocorreu
de forma ampla e intensa, o mercado se estruturou em novas bases promovendo a
disseminação pelo país.
A maioria dessas
mudanças - redacionais, editoriais, gráficas, empresariais e profissionais -
não foi introduzida no jornalismo carioca de maneira gradual e espontânea.
Apesar de já virem sendo gestadas há muito tempo, só conseguiram se impor
através de um processo consciente de reformulação, levado a cabo de forma
pioneira por algumas empresas jornalísticas e por alguns profissionais
(RIBEIRO, 2003, p. 153)
Os jornais pioneiros nesse vulto de novos empreendimentos foram o Diário Carioca, a Tribuna da Imprensa, a Última
Hora e o Jornal do Brasil.
Nota-se que esses jornais estão alinhados com o campo político, influenciando
as notícias e o modo de se fazer jornalismo na época.
Defendo, no entanto, a
hipótese de que o aspecto político jamais desapareceu totalmente, exercendo um
papel fundamental - estrutural – na dinâmica das empresas jornalísticas. Apesar
de se terem afirmado imperativos de gestão e de administração, estes ainda não
eram suficientes para garantir a autonomia das empresas. Por isso, os jornais
jamais deixaram de cumprir um papel nitidamente político. O apoio a
determinados grupos que estavam no poder ou na oposição (dependendo da
conjuntura) era essencial para garantir a sobrevivência de algumas empresas,
fosse através de créditos, empréstimos, incentivos ou mesmo publicidade
(RIBEIRO, 2003, p. 156).
A década de 1950 permitiu esse desenvolvimento no tocante à
industrialização do país, principalmente, do setor industrial e concomitantemente
do gasto com publicidade faz-se acompanhar esse caminho.
Nelson Rodrigues se encontrava no olho do furacão, e nele encontramos o
discurso da contradição da linguagem literária, com o texto jornalístico, na
essência da comunicação, esses dois campos se entrelaçam com empréstimos
recíprocos, muito pela dimensão da linguagem que permeia essa relação. Foi
nesse ritmo que Nelson conheceu o Última Hora e
Em sua casa nova, iria promover uma revolução na
imprensa brasileira, adotando a técnica americana de uniformizar os textos e
implantando a novidade do “copy-desk”
– redator encarregado de escoimar as matérias de verbos como, por exemplo,
escoimar. Ninguém mais podia ser literato na redação, a não ser em textos
assinados e olhe lá [...] Nelson passional como uma viúva italiana, achava
aquilo como um empobrecimento da noticia e passou a considerar os “copy-desks”
os “idiotas da objetividade” (CASTRO, 1992, p. 231).
Nelson era, portanto um idealizador de outra concepção de jornal, mais
identificado com as liberdades de escrita, com o emprego da subjetividade, herança
do jornalismo praticado pela sua família.
Sou da imprensa anterior ao copy desk. Tinha treze
anos quando me iniciei no jornal, como repórter de policia. Na redação não
havia nada de aridez atual e pelo contrário: - era uma cova de delícias [...]
De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na
redação, seja repórter do setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade
estilística. E o copy desk não respeitava ninguém (RODRIGUES, 1995).
Em 1955, a
família de Nelson obteve ganho favorável pelo empastelamento de “Crítica”
depois de vinte quatro anos depois da destruição do jornal. Depois de passar
pela televisão como comentarista esportivo na TV Rio com a famosa “Resenha Facit”,
e recebido pelo Correio da Manhã para começar a escrever suas “Memórias”, o que
impressionava era seu vasto currículo e experiência na área.
Fizera parte dos jornais e revistas no berço, na
plenitude e na morte. Atravessara todas as revoluções gráficas, estilísticas e
empresariais da imprensa naquele período e, nem que fosse como coadjuvante,
acompanhara de perto todas as transformações politicas do Brasil. Numa delas, a
de 1930, tinha sido até vitima [...] E, de fato, só o currículo profissional de
Nelson já impressionara. Fizera reportagem da polícia, futebol, crítica,
crônica, conto, folhetim, até mesmo consultório sentimental. Escrevera com seu
nome, com pseudônimos e com o nome dos outros. A lista dos jornais e revistas
importantes pelos quais passara dava água na boca: “A Manhã”, “Crítica”, “O
Globo” (três vezes), “O Cruzeiro”, “O Jornal”, “Diário da Noite” (duas vezes),
Última Hora”, e “Manchete”, fora os jornais e revistas menores – e mais o
“Jornal dos Sports” do qual era uma espécie de móveis e utensílios de que
ninguém se dava conta” (CASTRO, 1992, p. 354).
Nelson é um homem que foi forjado
dentro do jornal, sua vida se confunde com uma parte da história da imprensa
brasileira, desde cedo sua experiência como jornalista do cotidiano, lhe deu a
habilidade em compor com tamanha realidade as relações sociais entre homens e
mulheres na década de 1950 em sua coluna A
vida como ela é..., em um período de mudanças comportamentais e
tecnológicas, o escritor reproduz as tensões de sua época por meio de suas
representações sociais.
Grande parte de sua obra foi construída nas páginas do jornal, no diálogo
com os leitores, no tratamento da linguagem das ruas, de seus tipos sociais e
ambientes de convívio. Nada se compara a seu nível de realidade, a sua forma de
retratar o homem e seus dilemas frente à modernidade. Num tom sempre crítico e
inovador Nelson rompe com o moralismo estagnado e com a hipocrisia social e
apresenta o homem com intensa verdade, caracterizado segundo sua própria
natureza.
O cotidiano retratado em sua coluna jornalística instaura o começo
incipiente de uma onda de liberdade, de inversão dos papéis sociais, no que se
refere o que é ser homem, é o que é ser mulher na metade do século XX. Nelson
quebra em sua coluna o quadro social imposto pela época, onde a mulher cada vez
mais ampliava a sua participação no mercado de trabalho e nos índices de
escolaridade.
As mulheres estão representadas como dominadoras, sentem desejos por
outros homens que não são seus maridos, fragilizando a honra do masculino e
consequentemente a sua capacidade de impor seu domínio no campo da vida
privada. O tempo da coluna é outro que a sociedade da época não quer
reconhecer, por isso do impacto de suas representações para o período, que
ainda detinha fortes discursos em torno da sexualidade e do casamento.
Em um momento de intensas mudanças em variadas esferas da vida, a área da
imprensa não ficou de fora, o jornalismo tradicional-literário de Nelson estava
sendo severamente ameaçado, o estilo de escrita rebuscada, com intensa marca
pessoal do escritor, lentamente foi sendo esquecida pela prática direta e sem
rodeios da nova notícia. E a narrativa rodriguiana se assentava sobre essa
perspectiva entre realidade e ficção, jornalismo e literatura. Hoje:
Percebemos que o jornalismo feito por Nelson Rodrigues
é totalmente oposto ao que hoje chamamos de jornalismo convencional. Longe da
objetividade e do texto mecânico e engessado, o texto rodriguiano é despojado e
subjetivo. A experiência como repórter policial e a elaboração de matérias
designadas à seção de polícia, todos influenciaram as formas literárias do
autor. Os mesmos temas – amor, adultério e morte – são acrescidos de elementos
originários desta experiência de jornalista e, articulados, constituem partes
fundamentais do universo rodriguiano (SALES, 2011, p. 329).
Seu texto abarcava duas características fundamentais, a realidade e a
ficção, duas faces da sua estética textual, a capacidade de retratar
acontecimentos do cotidiano, filho de pai jornalista, legou as habilidades que
o tornaram um grande jornalista do seu tempo onde “a ficção era uma tradição da
família, e ele a levou a sério” (CLARK, 2002, p. 2). Por onde passou alavancou
as vendas dos jornais implantaram o desejo de leitura e mortalizou personagens
inesquecíveis no ambiente das redações dos jornais.
A conjuntura da década de 1950 reformou de forma atuante o que sabemos e
entendemos de jornalismo nos dias de hoje, eliminou situações convencionais e
pessoais de quem os escreviam e permitiu um maior alcance dos impressos na
sociedade garantindo o acesso a uma informação rápida e objetiva e de massa.
A separação de jornalismo e literatura se efetivou na década de 50, essa
associação não mais seria praticada e relegada ao segundo plano. Nelson
combateu veementemente essa nova postura devido a sua atuação herdada de sua
família, e que perdia cada vez mais espaço pelos novos jornalistas da época.
Nelson foi um intelectual engajado nas questões do seu tempo, seu
discurso crítico as reformas na escrita e renovações no campo do texto
jornalístico, lhe rendeu a sua imagem para a posteridade na compreensão da
historicidade das relações tecidas entre literatura e jornalismo na década de
1950.
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